PARASHAT TAZRIA

Lashon Hará


Nos Caminhos da Eternidade
Rabino Isaac Dichi

Grande parte desta parashá trata dos cuidados a serem tomados caso ocorra Tsaráat – uma doença de origem espiritual.

Conforme o Rabênu Bachyê zt”l, esse fenômeno era sobrenatural, milagroso. Não era somente uma doença de pele, mas também aparecia nas paredes das casas e nas roupas das pessoas. Ela só ocorria em Êrets Yisrael e tinha como finalidade advertir a quem pecou, que fizesse teshuvá (retornasse ao Criador com arrependimento).

O principal pecado originador da Tsaraat era o lashon hará (maledicência). Em Parashat Behaalotechá (Bamidbar 12:1-2), a Torá narra: “E falaram Miryam e Aharon de Moshê... e disseram: Porventura somente com Moshê falou o Eterno? Certamente também conosco falou! E ouviu o Eterno.” Mais adiante (Bamidbar 12:10) encontramos: “...e eis que Miryam estava com tsaráat”.

Miryam era a irmã mais velha de Moshê, salvou sua vida quando ainda era um bebê. Miryam era também uma profetisa e quando conversava com seu outro irmão Aharon, tomou a liberdade de fazer um comentário sobre Moshê. Esse comentário nem chegou a ofendê-lo, porque a Torá escreve logo em seguida: “Vehaish Moshê anav micol haadam asher al penê haadamá” (Bamidbar 12:3) – Moshê era muito humilde, mais do que todos os homens da face da Terra, ou seja, a observação de Miryam nem chegou a atingi-lo. Apesar de tudo isso, Mir-yam foi castigada com Tsaráat.

Em Parashat Ki Tetsê (Devarim 24:8-9) consta a seguinte passagem: “Guarda-te da Tsaráat e observa bem... Recordate o que fez o Eterno teu D’us a Miryam no caminho, quando saíste do Egito”. Esta mitsvá – de recordar o que o Todo-Poderoso fez a Miryam – é uma mitsvá contínua (para ser lembrada constantemente). Sempre que estivermos conversando com alguém e tivermos a possibilidade de falar a respeito de outra pessoa, temos que ter em mente, que até mesmo Miryam – que era profetisa e líder de todas as mulheres judias de sua época – não foi poupada do castigo, por ter falado de Moshê. Não compete a nós, fazer uso de nosso língua para criticar ou fazer comentários sobre as pessoas, mesmo que tenham fundamento.

Midrash Rabá (Vayicrá 33:1) nos relata um fato sobre lashon hará que merece atenção: Rabi Shim’on ben Gamliel tinha um escravo chamado Tavi, que é citado algumas vezes pelo Talmud e denominado de “Êved Casher”, um homem justo e correto. Certa ocasião, Rabi Shim’on pediu-lhe que fosse comprar a melhor parte da carne do animal e ele lhe trouxe uma língua. Num outro dia, Rabi Shim’on lhe pediu que trouxesse a pior parte da carne do animal e para sua surpresa, Tavi lhe trouxe novamente uma língua. Quando interrogado por seu patrão sobre o sentido desta atitude aparentemente contraditória, ele explicou: “Dela (da língua) vem o bem e o mal. Quando ela é positiva, não há nada melhor, porém quando é negativa, não há nada pior.

Na realidade, o lashon hará é proveniente da falta de autocontrole do indivíduo sobre sua língua.

Em seu livro Dêrech Hachayim, Rabi Moshê Chayim Luzzato zt”l (também autor do famoso livro Messilat Yesharim) explica que o poder da fala é uma força física e não espiritual: “Nêfesh hamedaberet, coach gufani veeno sichli legamre”.

É importante, pois, que o indivíduo tenha cuidado com o falar sem pensar – com o tagarelar. Muitas vezes devemos ficar em silêncio, para que não corramos o risco de errar e para que esta força física (a fala) não venha a anular o sêchel (entendimento, raciocínio). Por ser esta uma força espiritual, não é possível que dois fatores contraditórios ajam conjuntamente.

No final do primeiro capítulo do Pirkê Avot está escrito: “Shim’on benô omer – col yamay gadalti ben chachamim velô matsati laguf tov mishticá” – Shim’on ben Gamliel diz: Todos os dias de minha vida fui criado entre sábios e não encontrei algo melhor ao corpo do que o silêncio.

O silêncio é uma virtude que foi, muitas vezes, usada por personagens notáveis do nosso Tanach. Conforme mencionado em Shemuel I (10:16): “Veet devar hameluchá lô higuid lo asher amar Shemuel” – Shaul não revelou que fora nomeado rei de Israel. Shaul Hamêlech, ao ser comunicado pelo profeta Shemuel que o Todo-Poderoso o escolheria como o rei do Povo de Israel, não divulgou a notícia. Conforme Rashi e Radak, o motivo dessa atitude era a discrição e a simplicidade de Shaul.

Por ordem de Mordechay, também a rainha Ester soube calar-se. Não relatou ao rei Achashverosh que era de descendência judaica, até que chegasse o momento certo: “En Ester maguêdet moladtáh veet amáh” (Meguilat Ester 2:20) – Não disse Ester a que nação e a que povo pertencia.

Havia doze pedras no Choshen (vestimenta do cohen gadol), cada uma simbolizando uma tribo do povo de Israel. A pedra que simbolizava a tribo de Binyamin era denominada Yashepê, que pode ser interpretada como duas palavras: yesh pê, cujo significado é: existe boca (há o que ser dito). Todavia, não necessariamente, Binyamin fazia uso dela. Mesmo não tendo participado da venda de Yossef e mesmo sabendo do ocorrido, Binyamin não contou para Yaacov. Mordechay e Ester pertenciam à tribo de Binyamin.

Nem sempre quem silencia não tem o que dizer. Muitas vezes, o silêncio é mais expresivo do que muitas palavras.