PARASHAT BESHALACH

Não se Expor a Testes


Nos Caminhos da Eternidade
Rabino Isaac Dichi

Antes de sair do Egito, os Filhos de Israel recolheram os utensílios de prata, de ouro e vestimentas que os egípcios haviam lhes dado “Vayish’alu Mimitsráyim kelê chêssef uchlê zahav usmalot” (Shemot 12:35) – conforme prometido pelo Todo-Poderoso a Avraham: “Veacharê chen yetseu birchush gadol” (Bereshit 15:14) – E depois disso sairão com muita riqueza.

Enquanto isso, Moshê estava preocupado com o caixão de Yossef, pois precisava levá-lo junto com eles quando saíssem do Egito. Por isso, os sábios dizem que o passuc em Mishlê (10:8): “Chacham lev yicach mitsvot” – O coração do sábio busca mitsvot, refere-se a Moshê. Por conseguinte, quando Benê Yisrael saíram do Egito levaram o corpo de Yossef com eles.

No passuc do mizmor 114 do Tehilim, consta sobre a abertura do Mar Vermelho: “Hayam raá vayános” – o mar viu e fugiu. Nossos sábios perguntam o que o mar viu e explicam que viu o corpo de Yossef e por isso retraiu-se. Nesse momento, o Todo-Poderoso disse: “Yanus mipenê haná sheneemar vayános vayetsê hachutsa, af hayam nas mipanav” – Fugirá de quem fugiu, pois Yossef largou suas roupas nas mãos da esposa do Potifar (que queria seduzi-lo) e fugiu, e portanto o mar fugirá diante dele.

Por ter se resguardado e não ter pecado com a mulher de Potifar, Yossef foi recompensado de várias formas, conforme consta no Midrash Rabá (parashá 93): “Piv shelô nashac baaverá” – a boca que não teve contato com o pecado – “Veal picha yishac col ami”, foi recompensado que através de suas ordens guiou o povo do Egito. “Gufô shelô nagá baaverá” – o corpo que não teve contato com o pecado – “vayalbesh otô bigdê shesh” – foi vestido com roupas de seda. “Tsavarô shelô hirkin baaverá” – o pescoço que não se inclinou ao pecado – “Vayássem revid hazahav al tsavarô – foi colocado em seu pecoço a corrente de ouro. “Yadav shelô mishmeshu baaverá” – as mãos que não se envolveram com o pecado – “Vayasser Par’ô et tabatô meal yadô vaytena al yad Yossef” – o Faráo retirou o seu anel e colocou-o na mão de Yossef. “Raglav shelô passeu baaverá” – os pés que não caminharam para o pecado – “Vayircav otô bemirkêvet hamishnê asher lo” – foi levado na carruagem do rei. “Machashavá shelô chashvá baverá” – o pensamento que não refletiu no pecado – “Vayicreú otô Avrech, av bechochmá verach beshanim” – foi chamado de Avrech, pai em sabedoria apesar de jovem em idade.

O rabino Chayim Shmulevits zt”l, em seu livro Sichot Mussar, faz a seguinte pergunta: já que Yossef foi recompensado de todas estas formas, por que ele mereceu mais esta recompensa de o mar se abrir, por seu mérito? E mais ainda; esta recompensa parece ser superior às citadas anteriormente, pois salvou o Povo de Israel dos egípcios.

A explicação que ele traz é que Yossef tinha força suficiente e poderia ter recuperado suas roupas das mãos da mulher de Potifar. Mas não o fez, dando assim a oportunidade para ela difamá-lo dizendo que ele queria seduzi-la à força. Isto lhe custou caro, pois ele foi enviado para a prisão.

Este procedimento de Yossef demonstra um fundamento muito importante na forma de servir o Criador. Nesses poucos minutos que entraria em discussão para reaver suas vestimentas, estaria se colocando em situação de nissayon (teste) e quem sabe acabaria cedendo às provocações da esposa de Potifar. Yossef, entretanto, não quis arriscar. Mesmo que isso lhe traria vários problemas, preferiu fugir dali e não se colocar em situação de risco.

Este mesmo conceito aparece nesta parashá que relata a saída do Egito. Havia dois caminhos pelos quais os Filhos de Israel poderiam fazer sua caminhada. O Todo-Poderoso ordenou que eles seguissem pelo caminho mais comprido, que era o do deserto, tornando-se necessário que D’us fizesse o milagre de cair o man diariamente (exceto no Shabat) para alimentá-los. Tudo isso somente para que eles não fossem pelo outro caminho e tivessem que passar pelos Pelishtim, conforme o passuc (Shemot 13:17): “Velô nacham Elokim derech erets Pelishtim ki carov hu”. Os Filhos de Israel haviam sido libertados recentemente da influência do Egito e o Todo-Poderoso não quis colocá-los novamente em situação de perigo espiritual. Não quis colocá-los face a face com um povo que possuía frágeis conceitos espirituais, pois isso poderia influenciá-los negativamente.

Diariamente pedimos no Birchot Hasháchar: “Al teviênu lidê nissayon” – Que o Todo-Poderoso não nos coloque em situação de teste. O Talmud Sanhedrin 107 nos diz: “Leolam al yavi adam atsmô lidê nissayon sheharê David Mêlech Yisrael hevi et atsmô lidê nissayon venichshal” – Jamais devemos nos colocar em situação de teste, pois David colocou-se em prova e falhou.

Por tudo isso, concluímos que não devemos enfrentar o Yêtser Hará (o mau instinto) “frente a frente”. Muito pelo contrário; devemos fazer de tudo para não nos colocarmos em situação de teste, pois conforme o Talmud Bavá Batrá, mesmo que alguém tenha se saído bem ao colocar-se nesta situação, sua atitude não foi correta. Não devemos nos aproximar do mal, mesmo que tenhamos a certeza de poder triunfar (para maiores detalhes, vide Talmud Bavá Batrá 57b).