PARASHAT BEHAR

O Motivo do Cumprimento das Mitsvot


Nos Caminhos da Eternidade
Rabino Isaac Dichi

Esta parashá relaciona as leis referentes a quem decide ser um nazir.

Nazir é aquele que faz uma promessa, de que durante pelo menos trinta dias (o mínimo admitido para a promessa de nezirut) não beberá vinho, não cortará o cabelo e não se impurificará por mortos.

Além de ficar proibido de tomar vinho, o nazir fica proibido de consumir uvas frescas ou mesmo uvas passas. Nossos sábios explicam que o motivo desta proibição é fazer com que o nazir afaste-se de tudo o que estiver ligado ao vinho, para que não venha a consumir o próprio vinho. Ou seja, estas são precauções necessárias para que não venha a transgredir a promessa de nezirut.

Este cuidado, para que alguém não venha a infringir uma mitsvá da Torá, ocorre em muitos outros casos ditados pelos nossos sábios. Ele é um cerco para manter o indivíduo distante da transgressão. Esta passagem nos ensina a importância desses cercos, ao ponto de nossos sábios dizerem, que aquele que viola estes cercos é como se estivesse infringindo a própria mitsvá. Porque a partir daí, já não resta mais nenhum obstáculo para transgredir a mitsvá da Torá.

Midrash compara o Nazir ao Cohen Gadol. Qual é o motivo de tanta consideração para com o nazir? Ibn Ezra, mefaresh da Torá contemporâneo de Rambam, nos explica sobre o segundo versículo do cap. 6 de Bamidbar (“Ish ki yafli lindor nêder...”), que o nazir, ao fazer este nêder (promessa), age de uma forma diferente dos demais seres humanos, que costumeiramente são atraídos pelos desejos materiais. O Nazir, ao assumir este compromisso, demonstra que quer se afastar dos desejos materiais, com a finalidade de se aproximar mais do Todo-Poderoso, uma vez que o consumo de vinho tira a visão correta das coisas e afasta o ser humano dos serviços Divinos (“Ki hayáyin mashchit hadáat veavodat Hashem”).

A restrição do nazir cortar o cabelo consta em Bamidbar (6:5): Col yemê nêder nizro táar yaavor al roshô... Cadosh yihyê – Todos os dias de seu voto de Nazir, navalha não passará sobre sua cabeça... sagrado será. Sobre esta restrição, temos a explicação do Seforno. Ao deixar seu cabelo crescer, está ao mesmo tempo deixando de lado a preocupação de embelezar-se e a preocupação com o físico. Cadosh yihyê – E será santo, ou seja, estará afastado dos desejos materiais.

Torá exigiu do nazir, no dia do término de sua nezirut, que trouxesse ao Bêt Hamicdash um corban (um sacrifício). Isso porque alguém que alcançou tamanho nível espiritual, ao ponto de ser comparado ao cohen gadol (sumo-sacerdote), deveria permanecer neste grau elevado e não deixar a nezirut. Como ao findar sua nezirut ele não permanecerá neste nível e voltará ao contato com os desejos materiais e coisas terrestres das quais havia se privado, necessita fazer um corban que sirva como capará (perdão) por sua decaída espiritual (vide Rambam, Bamidbar 6:11).

Aprendemos, então, a importância do “cerco” feito pelos chachamim e também o quanto é necessário nos assegurarmos, de que não estamos decaindo do nível espiritual já alcançado. Se houver uma decaída, ela será considerada um erro grave, ao ponto de ser necessário um corban como capará.