PARASHAT SHELACH LECHÁ

NEM SEMPRE A MAIORIA TEM RAZÃO


Nos Caminhos da Eternidade
Rabino Isaac Dichi

Nesta parashá a Torá narra o episódio dos doze meraglim (espiões) enviados à Terra de Israel por Moshê Rabênu.

No relatório apresentado a Moshê pelos meraglim, dez dos doze espiões tinham uma opinião igual e radical, de que a Terra de Israel não tinha condições de acolher o povo, por vários motivos relatados por eles. Os dois outros meraglim, Yehoshua bin Nun, discípulo de Moshê, e Calev ben Yefunê, marido de Miryam (irmã de Moshê), tinham um ponto de vista diferente. Concluíram que a Terra de Israel tinha todas as condições para acolher o Povo de Israel, definindo-a como: “...Tová haárets meod meod” (Bamidbar 14:7) – ...É boa a Terra, muito, muito. Acrescentaram que: “...Vahashem itánu al tiraum” (Bamidbar 14:9) – ...O Todo-Poderoso está conosco; não os temam.

A reação do povo foi negativa, entretanto, chegando próximo de quererem apedrejar esses dois espiões. “Vayomeru col haedá lirgom otam baavanim...” (Bamidbar 14:10) – Pen-sou toda a congregação em apedrejá-los...

Que mal fizeram eles ao expor suas opiniões? Por que o povo acreditou cegamente nos outros dez e não nesses dois? O mais surpreendente, é que sequer uma minoria do povo teve dúvida, de que esses dois espiões estivessem com a razão e que os fatos relatados por eles fossem verdadeiros.

Deste episódio aprendemos uma grande lição. Nem sempre a maioria está com a razão. O povo em sua totalidade foi incitado pelos dez meraglim, e apesar de todo o perigo a que estavam espostos, Yehoshua e Calev permaneceram firmes em seu ponto de vista. Eles acreditavam piamente na verdade e tinham certeza de que “emet meêrets titsmach” (Tehilim 85:12) – a verdade tende a prevalecer. Yehoshua e Calev mantiveram sua opinião, embora, por um certo período de tempo, a impressão era a de que a razão estava com a maioria.

Esse acontecimento em nossa história, obriga-nos a levar em consideração a opinião daqueles que têm o intuito de preservar o Povo de Israel, sua Torá e suas mitsvot, mesmo que aparentemente não estejam com a razão e mesmo que sejam uma minoria. Porque, com o passar do tempo, a verdade, que talvez estivesse oculta por muito tempo, acaba prevalecendo.

Interessante notar que no lashon hacôdesh (idioma sagrado) a palavra emet (verdade) não possui plural, ensinandonos que a verdade é apenas uma. Por outro lado, a palavra sheker(mentira) possui plural (shecarim), conforme consta no Tehilim (101:7): “Dover shecarim lô yicon lenêgued enay” – Aquele que fala mentiras, que não se apresente perante o Criador.

Nossos sábios disseram: “Chotamô shel Hacadosh Baruch Hu, emet” – A verdade é o carimbo do Todo-Poderoso. Como na Torá consta a mitsvá de “Vehalachtá Bidrachav” (Devarim 28:9) – Seguir os modos de D’us (seguindo Seus exemplos, como sermos piedosos da maneira como D’us é piedoso), devemos também seguir os caminhos da verdade.

Por isso, David Hamêlech pede ao Todo-Poderoso no Tehilim 119, 29: “Dêrech shêker hasser mimêni Vetoratechá chonêni” – Livre-me do caminho da mentira e oriente-me segundo Tua Torá. Nesse versículo está claro que, a mentira e a Torá são caminhos opostos.

Uma vez que a verdade é o caminho de D’us e que Ele nos ordenou a Torá, esta deve ser seguida com autenticidade plena.