Os dias do mês hebraico de tevet ficaram marcados na história do povo de Israel como dias trágicos.
O Profeta Zecharyá 1 afirma que no décimo mês (o mês de tevet, pois o número dos meses hebraicos é contado a partir de nissan), deve-se jejuar.
Consta no Tratado de Rosh Hashaná (18b) que, na opinião de Rabi Shimon Bar Yochay, o dia do jejum é cinco de tevet. Neste dia, os judeus que se encontravam na Babilônia ficaram sabendo da triste notícia de que os inimigos invadiram Jerusalém (alguns meses antes) e destruíram a cidade. No entanto, na opinião de Rabi Akivá (pela qual foi fixada a legislação judaica), o jejum ao qual se refere o Profeta Zecharyá é o do dia dez de tevet, pois neste dia o exército babilônico cercou as muralhas de Jerusalém.
Dizem nossos sábios em Megilat Taanit, que além do jejum do dia dez de tevet, que é obrigatório para todo o Povo Judeu, os “justos” costumam ainda jejuar nos dias oito e nove de tevet. O motivo do jejum do dia oito é que neste dia o Rei Talmay obrigou os sábios judeus a traduzirem a Torá escrita para a língua grega 2. Nossos sábios encaram este episódio como uma tragédia, pois a partir desta data a Torá se tornou acessível a qualquer povo, ficando sujeita a interpretações errôneas. Nossos sábios comparam a tristeza deste dia com o dia do pecado do bezerro de ouro 3.
Quanto ao dia nove de tevet, o Shulchan Aruch determina 4 que não se sabe qual foi o evento trágico ocorrido neste dia. No entanto, o Maguen Avraham cita que na reza do jejum de dez de tevet, segundo o costume ashkenazi 5, consta que no dia nove faleceu o Profeta Ezrá Hassofer. Ainda, nos livros Halachot Guedolot e Orchot Chayim Melunil, consta que no dia nove de tevet faleceram dois importantes Profetas: Ezrá e Nechemyá.
Pelo costume sefaradi 6 descreve-se que Ezra Hassofer faleceu em 10 de tevet. Sendo assim, pelo costume sefaradi, o motivo para o “jejum dos tsadikim” no dia nove continua um enigma.
A curiosidade aumenta levando em consideração as palavras do Tsedá Ladêrech 7, de que nossos sábios propositalmente não quiseram revelar qual foi o episódio ocorrido em nove de tevet.
A chave para este mistério, proposta por Rabênu Avraham Bar Chiyá zt”l no seu Sêfer Haibur 8, é que neste dia nasceu uma pessoa que levou milhares de judeus a acreditarem que D’us se revelou em forma de um ser humano.
Segundo os cálculos, a noite de nove de tevet do ano 3761 do calendário hebraico é a noite de 24 de dezembro do ano 1 a.e.c., que na prática é o ano “zero” do calendário gregoriano. Embora naquela época o calendário judaico ainda não fosse fixo, e sim determinado pelo San’hedrin todo mês segundo a lua nova, as datas eram extremamente próximas ao calendário fixo, pois ambos são baseados na Lua. Neste contexto, podemos observar que no ano de 2020 do calendário gregoriano, o dia nove de tevet coincidirá com o dia 24 de dezembro. Fica claro, assim, por que nossos sábios mantiveram em sigilo o “jejum dos tsadikim” neste dia.
Com estes fatos esclarecidos, algumas questões curiosas podem ser levantadas:
1) Por que justo estas tragédias ocorreram no mesmo período?
2) Por que, segundo a opinião de Rabi Shim’on Bar Yochay, o dia em que se ouviu sobre a invasão de Jerusalém é mais digno de jejum que o dia em que, na prática, começou o cerco à cidade?
3) Por que nossos sábios comparam o dia em que a Torá foi traduzida com o dia do pecado do bezerro de ouro?
Para compreendermos estas questões, devemos primeiramente pesquisar qual foi o pecado, cometido pelo povo judeu, que acarretou o cerco a Jerusalém.
Examinando os versículos em Yirmeyá 9, percebemos que um dos principais motivos que levou ao cerco de Jerusalém foi a profanação do Shabat. O Chatam Sofer zt”l em suas derashot também aponta a profanação do Shabat como sendo a causa do cerco a Jerusalém.
Tendo como base esta colocação, o Chatam Sofer explica que é possível entender melhor as palavras do Rabênu David Abudarham zt”l. Ele determina que, se dez de tevet caísse num Shabat, deveríamos jejuar no próprio dia do Shabat, e não adiar para o domingo.
Em todos os outros jejuns, com exceção de Yom Kipur, adiamos o jejum para o domingo. Conforme o Rabênu David Abudarham, sendo que a profanação do Shabat foi que causou a tragédia do cerco de Jerusalém, deveríamos jejuar em dez de tevet mesmo no Shabat.
Sobre isso, o Rabino Yechezkel Meotrovska zt”l 10acrescenta, ainda, que o próprio Rei da Babilônia (Nevuchadnetsar) temeu levar seus exércitos para sitiar Jerusalém. Somente quando escutou que os judeus profanavam o Shabat, sentiu-se seguro em executar um cerco à Cidade Santa.
Entretanto, sendo o sítio a Jerusalém o começo do processo de destruição da cidade, deveríamos apontar os pecados de idolatria, assassinato e impudor como os causadores do cerco. Nossos sábios 11 determinam que estes foram os três principais motivos que levaram à destruição de Jerusalém. Embora conste 12 que a profanação do Shabat também causou a destruição, este não foi o motivo principal. Aparentemente, esta colocação contradiz o proposto inicialmente. A conclusão a ser tirada é que o Povo Judeu era merecedor da destruição de Jerusalém devido à idolatria, assassinato e impudor, porém o Misericordioso, bendito seja, não colocou em prática esta punição até que os judeus pecaram profanando o Shabat.
Em uma análise mais profunda, a diferença entre a vida do Povo de Israel na Terra Santa, durante a existência do Bêt Hamicdash, e a vida na diáspora não é uma simples diferença de posição geográfica. Do ponto de vista espiritual, estas duas eras possuem características completamente diferentes. Quando o Bêt Hamicdash existia, o Povo Judeu percebia e sentia a existência de D’us da mesma forma que nós percebemos a existência de nossas famílias e vizinhos. No Bêt Hamicdash ocorriam constantemente dez milagres, que todo o povo testemunhava com os próprios olhos pelo menos três vezes ao ano. Todos tinham como obrigação visitar o Bêt Hamicdash em Pêssach, Shavuot e Sucot.
Naquela época, D’us também se comunicava explicitamente com o Povo Judeu por intermédio dos profetas. Eles eram homens que se impunham como profetas verdadeiros por meio de previsões incontestáveis.
Também era possível consultar o Todo-Poderoso por meio dos “Urim Vetumim”, que forneciam respostas evidentemente milagrosas.
A honra do Reinado Divino neste mundo estava no seu apogeu. Todas as decisões relativas ao povo estavam nas mãos do San’hedrin - uma instituição com os 71 maiores eruditos de Torá da geração. Todo o Povo Judeu escutava e cumpria com respeito e apreciação as orientações dos sábios.
Em suma, aquela época foi semelhante à futura era messiânica, quando todos os judeus claramente “viverão” a existência Divina - terão proveito da proximidade espiritual do Criador. Toda a humanidade respeitará e reconhecerá o Reinado Divino.
Para viver em uma era tão maravilhosa, é necessário que o Povo de Israel esteja no nível espiritual próprio a tal vida sobrenatural. Se o povo erra tão gravemente, cometendo idolatria, assassinato e impudor, distancia-se da espiritualidade. Assim, obviamente não fica apto ou compatível com o modo de vida milagroso. Neste nível mais baixo, o povo é merecedor do “exílio” - um modo de vida material no qual D’us se oculta atrás das máscaras da natureza. Entretanto, enquanto os judeus cumpriam o Shabat, ainda se ligavam com a “vida metafísica”, pois no Shabat o judeu se desliga de todas as suas tarefas mundanas e dedica-se somente ao estudo de Torá e ao cumprimento das mitsvot.
Dizem nossos sábios 13 que o Shabat é “meên olam habá”, ou seja, tem certa semelhança com o modo de vida da era messiânica. Sendo assim, mesmo tendo cometido pecados gravíssimos, eles ainda tinham um “cordão umbilical” que os ligava ao modo de vida da era do apogeu espiritual. Por isto, D’us, em sua grande misericórdia, poupou temporariamente a destruição do Templo e o começo da era do exílio. Quando os judeus cortaram esta ligação, passando a profanar o Shabat, perderam todo mérito de usufruírem das maravilhas do mundo sobrenatural - e D’us decretou a destruição de Jerusalém e do Bêt Hamicdash.
Quando os exércitos babilônicos cercaram Jerusalém, a tragédia não foi propriamente o cerco, mas sim o significado espiritual contido por trás do fato: os judeus não mais eram merecedores da vida de milagres e de proximidade a D’us.
Nossos sábios revelam no Midrash Tanchumá 14que em dez de tevet os judeus já mereciam o exílio. No entanto, D’us executou o exílio somente no verão (em Tish’á Beav), pois se os judeus fossem aprisionados e tirados de Israel no inverno (em dez de tevet), muitos faleceriam devido ao frio.
O jejum de dez de tevet não é devido à ocorrência física do cerco a Jerusalém, pois no dia do cerco os judeus não foram afetados. O jejum é realizado pela terrível descoberta de que o nível espiritual judaico não era mais compatível com o modo de vida messiânico.
Entendemos agora por que Rabi Shim’on Bar Yochay sustenta que o dia cinco de tevet é mais próprio para jejuar do que o dia dez. No dia dez, somente os judeus que moravam na terra de Israel descobriram a verdade dolorosa de sua nova posição espiritual e o fim da era sobrenatural. Mas em cinco de tevet do ano seguinte, esta notícia se tornou conhecida por todo o povo.
O dia oito de tevet, quando a Torá foi traduzida para o grego, tem o mesmo sentido dos dias cinco e dez. Até então, outros povos não tinham acesso à Torá escrita. Mas eles sabiam dar o valor devido à Torá, pois percebiam quão sábios e especiais são os estudiosos da Torá. Conforme consta em Devarim (4:6): “Pois ela (a Torá) é vossa sabedoria e inteligência aos olhos dos povos”. Isto fazia os demais povos respeitarem a religião judaica, representando uma honra mundial ao Reinado Divino - ou seja, um pouco do “gosto” da era messiânica.
Quando a Torá escrita foi traduzida, os outros povos tiveram a oportunidade de estudá-la. Mas fizeram-no sem a explicação e análise profunda da Torá Oral. Assim, depararam-se com o que pareciam ser “simples historinhas”. Nestas histórias, sem o significado profundo transmitido pela Torá Oral, D’us pode ser interpretado como um ser limitado. Com isto, a honra Divina neste mundo foi gravemente afetada - o que é um dos clássicos sintomas do exílio, quando D’us se oculta e percebemos somente a existência da “natureza”. Sem dúvida, isto é um motivo suficiente para, pelo menos, os “justos” jejuarem, assim como em dez de tevet jejuamos pela perda da era da glória Divina.
Podemos compreender agora por que nossos sábios comparam o dia da tradução da Torá com o dia do pecado do bezerro de ouro. O bezerro não foi uma idolatria comum a “outro deus”, mas um problema muito maior. Os judeus anunciaram 15: “Este é vosso deus, Israel, que vos tirou da terra do Egito”. Ou seja, o D’us verdadeiro que os judeus conheciam até então, que realizou todos os grandes milagres no Egito e que os tirou da escravidão, neste instante foi considerado pelos pecadores como se fosse um simples bezerro de ouro, fabricado por mãos humanas. Toda a honra de D’us revelada com o Êxodo do Egito - que é comparado 16 com a era messiânica - obscureceu-se com este evento.
Assim também, os episódios de nove de tevet seguem a mesma linha das demais tragédias de tevet. Segundo o Halachot Guedolot, que afirma que em nove de tevet faleceram Ezra Hassofer e Nechemiá, esta data representa o final da era das profecias. Estes dois profetas foram praticamente os últimos da história judaica, levando em consideração que o profeta Mal’achi é o profeta Ezrá 17. A partir desta data, D’us deixou de comunicar-se de forma explícita com o seu povo. Passou a fazê-lo somente por meio de “rúach hacôdesh”, que é um nível muito mais baixo de profecia. Este é um dos mais dolorosos sinais do estilo de vida do exílio, quando D’us se oculta e não é mais percebido de forma clara.
O fato citado por Rabênu Avraham Ben Chiyá, de que no dia nove de tevet surgiu a semente que mais tarde levou aos tristes frutos da perda espiritual de milhares de judeus, representa também a mesma idéia contida nos demais episódios. Alguns judeus passaram a pensar que o D’us abstrato de seus antepassados revelou-se em simples “carne e osso”, algo muito semelhante ao ocorrido no pecado do bezerro de ouro.
Por todos estes fatos, nos dias de tevet devemos procurar reforçar-nos em Torá e mitsvot, principalmente no cumprimento do Shabat. Assim, seremos mais aptos e compatíveis com o modo de vida da era messiânica e teremos méritos para tomar parte dela.
Neste contexto, nossos sábios afirmaram 18 que se todo o povo judeu guardasse a santidade de dois Shabatot seguidos, isto já seria suficiente para dar início a época messiânica. Que assim seja em breve, amen sela!
Referências Bibliográficas
1. cap. 8.
2. Vide Tratado de Meguilá 9a.
3. Tratado Soferim 1, 7.
4. Ôrach Chayim, siman 580.
5. Compilada por Rabênu
Yossef Tov Alem zt”l.
6. Compilada por Rabênu
Yechiel Mundolfo zt”l.
7. Maamar 5 - kelal 1, cap. 8.
8. Pág. 109.
9. Cap. 17, versículos 19 a 27.
10. No seu livro Codshê
Yisrael.
11. No Tratado de Yomá 9b.
12. Tratado de Shabat 119b.
13. Tratado de Berachot 27b.
14. Parashat Tazria, 9.
15. Bamidbar 32:4.
16. Michá 7:16.
17. Meguilá 16a.
18. Tratado de Shabat 118b.