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Como Comportar-se

Rabino I. Dichi

Rabino I. Dichi comentando "Hilchot Deot" do Rambam

Como devemos andar

O Rambam alerta que um talmid chacham não deve andar encurvado, porém não deve caminhar ereto demais. Ele diz que se deve andar “com o corpo aprumado”, porém, sem exagero. Também não é correto que o homem ande muito devagar, o que pode denotar orgulho excessivo. Mas não precisa correr desabaladamente, precipitado pelas ruas. É preciso equilíbrio.

É verdade que somos filhos de um rei e devemos nos comportar como tais, mas não é preciso exibir isso para todo o mundo - não devemos ter soberba. É suficiente que nos comportemos em outras coisas como reis e rainhas

Também não se deve andar como se possuísse uma corcova. Mais uma vez, é preciso encontrar o ponto de equilíbrio.

A pessoa deve andar como se estivesse ocupada com seus afazeres, com um passo um pouco apressado, mas não afoito.

O Rambam observa que é possível perceber se alguém é inteligente, sábio, equilibrado, ou não, apenas por seu jeito de caminhar. “Ao tolo, quando anda, falta coração”, escreveu Shelomô Hamêlech (Cohêlet 10:3). É como se ele avisasse a todos que é um tolo.

Um homem é o que ele veste

Após a análise de condutas a serem adotadas na forma de comer, de falar, de se portar e até relacionadas ao bem-estar físico, veremos qual a maneira ideal que uma pessoa deve ter ao se vestir.

O Rambam escreve que essas colocações são feitas para um talmid chacham. Entretanto, não há diferença no modo como um estudioso de Torá e as demais pessoas devem se vestir. Portanto, essas regras cabem a todos nós.

Diz o Rambam, que a vestimenta de um talmid chacham deve ser “formosa e limpa”. É proibido ter alguma mancha em sua roupa. Por outro lado, não vestirá roupas de reis feitas com fios de ouro e púrpura; não se vestirá com ostentação, pois isso chama a atenção. Também não pode se vestir como uma pessoa carente, com roupas que aviltam e rebaixam quem as usa.

Portanto, deve se vestir com uma roupa “intermediária” - mais uma vez, observamos a necessidade de se encontrar o equilíbrio - nem muito luxuosa, nem humilhante. É a isso que se refere o termo “roupa formosa”, com formas e aspecto agradável.

O talmid chacham tem de manter seu corpo coberto. Por conseguinte, não é a conduta de um talmid chacham vestir-se com roupas transparentes.

Contudo, as mulheres devem vestir-se com o maior recato. Cabe a cada mulher procurar saber qual a maneira correta de se vestir conforme as leis da Torá. Deve também ficar atenta para não chamar a atenção de outros homens.

Antigamente, todos usavam vestimentas compridas, diferentes das de hoje em dia. No Oriente, as pessoas costumavam usar túnicas. Estas não devem se arrastar pelo chão, pois, se assim for, darão a impressão de que quem as usa é presunçoso e insolente. A roupa, portanto, não deve passar dos calcanhares. E suas mangas devem ir até o pulso.

Não deverá usar sapatos com remendos no verão e, no inverno - se for uma pessoa carente - poderá usá-los com remendos, para proteger seus pés do frio e da chuva.

Não se deve sair perfumado e nem com roupas perfumadas. Mas não há problema em usar desodorante ou perfume, exclusivamente para evitar o cheiro de suor.

Cuide de seu bom comportamento moral

Não é recomendável sair sozinho à noite, justamente para evitar possíveis comentários maldosos. A não ser que isso seja algo habitual, como, por exemplo, ao ter um horário fixo para o estudo da Torá todas as noites. Assim, não haverá motivo para as pessoas desconfiarem de sua conduta.

Como observado no Parágrafo 7, muitas pessoas justificam-se, pensando: “Por que devo me preocupar com o que os outros pensam ou suspeitam?”. A resposta é um versículo de Shelomô Hamêlech: “Afaste todo e qualquer tipo de comentário pejorativo de sua pessoa”.

Concluímos daqui que temos de nos preocupar com que as pessoas não façam qualquer tipo de comentário negativo sobre nós ou sobre nossa conduta. Afinal, vivemos em uma sociedade e não podemos dar motivos para que façam comentários depreciativos de nós.

Na Torá está escrito: “Procurem ser ilesos (limpos) com Hashem e com Yisrael”. Se há algo que Hashem nos ordenou fazer, obviamente que a prioridade é obedecer ao Criador. Mas, no caso de já estarmos cumprindo nossos deveres para com Hashem, devemos também ter uma boa imagem perante as pessoas, evitando certos comentários a nosso respeito por parte delas.

Sem ostentação e de acordo com suas possibilidades

O talmid chacham leva uma vida de equilíbrio. Ele come, bebe e sustenta sua família, de acordo com o que Hakadosh Baruch Hu lhe proporcionou. Ele não deve exagerar com luxo desnecessário à sua família. É claro que deve se esforçar para suprir sua família com o que ela necessita, mas não precisa se empenhar em fornecer mais do que o necessário. A Torá nos diz que só devemos comer carne quando tivermos apetite para isso, ou seja, vontade de comer carne.

O Rambam diz ser suficiente para uma pessoa sadia (alguém que não precise de carne, como por exemplo, que não sofra de insuficiência de proteína em sua dieta), comer carne de Shabat em Shabat, ou seja, uma vez por semana.

E se tiver condições financeiras para comer carne todos os dias, pode fazê-lo. Daqui extrai-se a lição de que se deve comer de acordo com as próprias condições financeiras, e não se endividar para isso.

Nossos chachamim também nos ordenaram a comer menos do que precisamos, mas nos vestirmos de acordo com o que necessitamos. Ou seja, entre comer e vestir-se, a prioridade é a segunda.

O homem também deve respeitar sua esposa e filhos mais do que a si mesmo. Isso significa que se, por exemplo, o marido tem possibilidade de comprar uma única roupa, na véspera de Pêssach, ou para ele ou para ela, ele deve dar preferência à esposa. Além disso, a Torá ainda declara que ele deve gostar dela como gosta de si próprio.

Em sua infinita sabedoria, a Torá sabe ser impossível que alguém goste do outro mais do que de si próprio, por isso, orienta que o marido goste da esposa como gosta de si mesmo. Já com relação ao respeito, o Talmud diz ser preciso que o marido respeite a mulher mais do que respeita a si mesmo (pois isso é algo totalmente possível).

Entretanto, se a roupa do marido estiver em estado precário e a da esposa não, a prioridade será dele, pois, como foi explicado no início deste parágrafo, o talmid chacham deve se vestir com roupas formosas e sem manchas.

Pão, casa e casamento

Diz o Rambam que o caminho dos seres equilibrados deve ser o de ter um trabalho que o sustente e, depois, que tenha uma moradia e, finalmente, se case. Aqui, o Rambam cita o versículo da Torá, sobre o homem que plantou um vinhedo, e ainda não pode desfrutar dele (os frutos não podem ser consumidos nem vendidos nos primeiros três anos do plantio e, no quarto ano, têm de ser ingeridos em Êrets Yisrael); sobre o homem que construiu uma casa e não a inaugurou, ou o que noivou e ainda não se casou. Todos esses são dispensados da guerra.

O Rambam não trouxe esse assunto para nos ensinar sobre quem vai e quem não vai à guerra, mas sim, para orientar quais devem ser as etapas no decorrer da vida de um homem. Primeiramente, ele deve ter um ofício, trabalho (representado pelo vinhedo); depois, deve comprar uma casa e, finalmente, se casar. Essa ordem é retirada dos versículos acima.

Esses que não são equilibrados, que primeiro se casam, compram casa só se puderem e, só depois se preocupam com o sustento, vão acabar tendo de viver de tsedaká.

É importante acrescentar aqui o que o Rambam escreve no último capítulo das leis referentes à Shemitá e Yovel.

“Por que os leviyim não receberam uma porção na herança da Terra de Yisrael e nos despojos de guerra como seus irmãos”?

“Porque eles foram consagrados a Hashem para servi-Lo e para instruir as pessoas em geral em Seus caminhos justos e Seus juízos corretos, conforme escrito em Devarim (33:10), ‘Eles ensinarão Teus juízos a Yaacov e Tua Torá a Yisrael’”.

“Portanto, eles foram separados dos caminhos do mundo. Eles não fazem guerra como o restante do Povo de Yisrael, nem recebem herança, nem adquirem para si mesmos, por intermédio de seu poder físico. Em vez disso, eles são a Legião de Hashem conforme consta em Devarim (33:11): ‘Hashem abençoou sua Legião’ e Ele os provê, conforme escrito em Bamidbar (18:20) ‘Eu sou Tua porção e Tua herança’’’.

Ou seja, os leviyim são separados do envolvimento material para que possam se devotar ao espiritual. Hashem, entretanto, garante que esta troca não vai lhes causar nenhuma perda, porque Hashem providenciará a eles suas necessidades materiais.

E o Rambam continua, dizendo que todo indivíduo pode chegar a um nível similar de santidade: “Não somente a tribo de Levi, mas qualquer ser humano, cujo espírito o motivar, e entender com sua sabedoria que deve colocar-se à parte (se afastar) e comparecer diante de D’us para se consagrar a Ele. Ao servir Hashem e conhecê-Lo, e prosseguindo da forma correta como D’us o fez, removendo de seu pescoço o jugo dos muitos valores que as demais pessoas buscam - ele será consagrado como o Kodesh Hakodashim (o local mais sagrado do Bet Hamikdash). D’us será Sua porção e herança para sempre e proporcionar-lhe-á o que é suficiente para ele neste mundo, assim como Ele provê aos cohanim e aos leviyim. Afinal, David declarou (Tehilim 16:5): ‘Hashem é o lote da minha porção; Tu és meu cálice, Tu apoias minha sorte’”.

Portanto, o próprio Rambam - que escreveu em Hilchot Deot ser primeiro necessário ter um trabalho, uma moradia e somente depois deve casar-se - nos revela, em Hilchot Shemitá, que pessoas que querem ser como shevet Levi poderão optar por estudar. Certamente Hashem lhes proverá tudo o que for necessário para sua sobrevivência.

O Rav Yossef Karo zt”l, em sua obra sobre o Rambam denominada Kêssef Mishnê, Hilchot Talmud Torá cap. 3 par. 10 esclarece este assunto com propriedade. Vide também Biur Halachá.

Bens duradouros

Neste parágrafo, o Rambam refere-se a pessoas que possuem bens. Suponhamos que o sujeito se entedie de suas propriedades e resolva doá-las a uma causa sagrada (kodesh) como um Bet Midrash, yeshivá, etc. Isso não é correto. É, até mesmo, proibido. Ele deve ficar com ao menos o mínimo para manter-se e não ter de recorrer à tsedacá.

Diz o Rambam: que não venda um campo (antigamente, o sustento vinha da agricultura), pois irá comprometer seu sustento. E não venda um bem imóvel para comprar bens móveis, pois o imóvel é duradouro, ao contrário dos bens móveis. Já o caminho inverso é permitido: pode vender bens móveis para comprar imóveis. Também não deve fazer comércio com o valor de sua casa onde reside, pois ficará sem ter onde morar.

A regra de tudo isso que estamos estudando, escreve o Rambam, é ter em mente o raciocínio de onde irá ser bem-sucedido. Só se pode trocar o que rapidamente vai embora, pelo que é duradouro.

Também não se deve pensar naquele momento apenas, mas no futuro. Não se pode tirar proveito momentâneo e gastar tudo, sem pensar no amanhã. O autor também não está dizendo que se deve guardar absolutamente tudo o que se recebe. É preciso ter emuná (fé) que Hashem deu e dará novamente. O que o Rambam afirma é que a pessoa deve gastar de forma racional, sábia e calculada.

Negócios honestos

Os negócios do talmid chacham são feitos com honestidade. Depois dos 120 anos, todos são julgados e a primeira pergunta que se faz à pessoa é se ela conduziu seus negócios com honestidade. Essa é a primeira pergunta, pois, caso o sujeito tenha obtido dinheiro de forma ilícita e, com ele, cumprido as mitsvot (mezuzot, tefilin, etrog, lulav, comida casher, etc.), elas não serão contabilizadas como tais, pois foram feitas com dinheiro desonesto.  A segunda pergunta é se ela fixou horários para o estudo da Torá. Nenhum yehudi está isento dessas questões e obrigações.

O Rambam acrescenta duas palavras sobre os negócios feitos com honestidade: beemet uveemuná (de uma forma autêntica e de boa-fé).

Ele traz alguns exemplos: quando a pessoa disse “não”, manteve seu “não” da mesma forma quando disse “sim”? De acordo com o Judaísmo, há o conceito comercial de “mechussar amaná”, que significa falta de confiabilidade. Por exemplo, se alguém deu sua palavra que vai vender ou comprar, mesmo que não tenha recebido dinheiro ou assinado qualquer tipo de documento - e mesmo que o negócio não está fechado - ele empenhou sua palavra. E, portanto, não deve voltar atrás. Chachamim nos dizem que, caso não honre sua palavra, ele é mechussar amaná, não é digno de confiança.

Entretanto, há casos nos quais é permitido mudar de ideia. Para isso, é preciso entender que objetos móveis tornam-se propriedade de alguém, quando são suspensos pelas mãos dessa pessoa. Em algumas aquisições, isso não é possível, e, aí, entra o conceito de kinyan sudar, ou seja, suspende-se um lenço, que “substitui” o objeto (impossível de ser erguido), para determinar que, a partir daquele momento, sua propriedade passará para as mãos de outra pessoa. Por exemplo: o noivo, em seu casamento, se compromete com o que está escrito na ketubá. Além das duas testemunhas que assinam a ketubá, validando-a, é necessário tomar desse noivo um kinyan (lenço ou outro objeto, como uma caneta). Este objeto - que pertence ao rabino ou a uma das duas testemunhas - é entregue ao noivo. O noivo deve então suspender esse kinyan, e ao fazê-lo o rabino adquire, para a noiva, seus direitos, ou seja, tudo aquilo que está determinado para ela na ketubá.

Portanto, vimos aqui que, pela Torá, não se adquire nada apenas com palavras. Mas os chachamim deram muita importância a ela. Se o sujeito empenhar a palavra, e voltar atrás, ele será chamado de mechussar amaná.

Os casos nos quais é permitido alterar a palavra são aqueles em que, eventualmente, surja um fato novo, desconhecido do comprador ou do vendedor. Por exemplo, a pessoa acredita que o carro que está querendo comprar possui câmbio automático, mas, depois, descobre que não. Sua palavra pode ser quebrada, porque ela não foi empenhada sobre as reais condições do bem a ser adquirido. Convém sempre consultar um rabino nestes casos nos quais surgir um fato novo.

Temos de ser minuciosos ao pagarmos por aquilo que compramos, porém, em relação a receber de quem compra de nós, não devemos ser tão minuciosos (exigindo cada centavo, por exemplo).

Diz o Rambam, que o talmid chacham deve pagar no ato. Também é recomendável que o talmid chacham não seja fiador, pois, caso ele não possa assumir a dívida do outro, levantará comentários negativos sobre si. E, ainda, não deve ser procurador de terceiros, pois poderá ser envolvido em situações desfavoráveis para sua imagem. É preciso que ele preserve sua idoneidade e seu nome.

E se, por exemplo, alguém deve para o talmid chacham, ele precisa ser paciente, bondoso, desculpar e dar um prazo para que o devedor lhe pague.

Não se deve entrar em um ramo do comércio no qual seu colega já esteja, para que não acabe desfalcando sua freguesia. Entretanto, atualmente, o comércio é muito diversificado e há situações em que isso é permitido. Estas leis são complexas e extensas. Deve-se sempre consultar um rabino sobre os conceitos de “yored leumanutô shel chaverô” e de “ani hamehapech bacharará” - leis de competição, disputa e concorrência.

Que nunca provoque, oprima ou humilhe o outro.

Pergunta o Rambam: “E qual a conclusão que tiramos de tudo o que foi citado anteriormente?”. Ele mesmo responde: “Devemos estar entre os que são perseguidos, em vez daqueles que perseguem; entre os ofendidos, e não os que ofendem”.

Sobre quem se conduz dessa maneira, o profeta Yesha’yáhu, em nome de Hashem, o louva dizendo: “Você é Meu servo, Yisrael, que em você, posso Me glorificar”.