Yossi ben Yochanan ish Yerushaláyim omer yehi vetechá patúach lirvachá veyihyu aniyim benê vetecha veal tarbê sichá im haishá, beishtô ameru cal vachômer beêshet chaverô; mican ameru chachamim, col zeman sheadam marbê sichá im haishá gorem raá leatsmô uvotel midivrê Torá vessofô yoresh Guehinam.
“Yossi ben Yochanan, da cidade de Jerusalém, disse: Que sua casa esteja plenamente aberta; sejam os carentes parte de sua própria família; e não converse excessivamente com a mulher. Isto foi dito em relação à sua própria mulher, quanto mais sobre a mulher dos outros. Baseados nisto, nossos sábios disseram: Todo aquele que conversa excessivamente com mulheres faz mal a si próprio, desperdiça seu tempo de estudo de Torá e está fadado a um lugar no Guehinam (inferno).”
“Não converse excessivamente com a mulher”
Qual a conexão entre o começo da mishná - “Que sua casa esteja plenamente aberta” e o seu final - “Não converse excessivamente com a mulher”?
O Chassid Yaavets explica que o começo da mishná não está nos dizendo somente para dar tsedacá aos pobres, mas sim para recebê-los em casa. Ou seja, consolá-los, conversar com eles, dar-lhes apoio moral.
A Guemará (Ketubot 111b) ensina que quem dá dinheiro a um pobre recebe seis bênçãos. Quem o consola, por sua vez, recebe onze. Aprendemos desta guemará que ajudar um pobre financeiramente é importante, mas ajudá-lo moralmente é ainda mais. Esse é o sentido da expressão “que sua casa esteja plenamente aberta”: que recebamos o carente em casa e o tratemos como se fosse alguém de nossa família.
Por que o fato de consolar uma pessoa carente está num nível mais alto do que dar-lhe dinheiro? Quem dá dinheiro também está ajudando o pobre! Quando escolhemos um médico, é melhor aquele que cura “interiormente” do que o que cura a doença “exteriormente”. Quando a cura é exterior, somente nos sintomas, a doença acaba voltando. No entanto, quando é interior, atacando as causas da doença, a pessoa se cura de forma definitiva. Acontece o mesmo com a mitsvá de ajudar o próximo. Aquele que dá dinheiro está ajudando “exteriormente”, o que é bom, pois ao menos resolve o problema enquanto o dinheiro não acabar. Entretanto, aquele que apóia e consola, ajudando “interiormente”, está curando o pobre totalmente e para sempre, no sentido de lhe dar forças para enfrentar e superar o teste da pobreza! E este é um ato muito grande.
Todo esse comentário é do Chassid Yaavets, e ele continua explicando: Existe uma exceção nesta recomendação - quando a pessoa carente for uma mulher. Neste caso não converse tanto com ela. É claro que devemos tentar consolá-la, mas sem prolongar a conversa e passar do devido. Esta é a conexão entre estas duas frases da Mishná.
Há uma outra explicação para a ligação entre as duas partes da Mishná.
Existem pessoas que aceitam visitas em casa, o que é uma boa ação muito importante, mas não as procuram. Se lhes pedirem, elas recebem as visitas, mas não saem à procura de convidados.
Por isso a Mishná nos ensina que a porta de nossa casa deve estar sempre aberta a todos, para mostrar que estamos procurando visitas. Para que todos entendam que, se quiserem, podem entrar à vontade.
Mas “deixar a casa aberta” não é a mitsvá em si. É um meio para chegarmos a cumprir a mitsvá de receber visitas. Devemos deixar a porta aberta e, por meio disto, receberemos pessoas. É como um incentivo que nossos sábios ensinaram para chegarmos à mitsvá.
Com relação a falar com mulheres - a continuação da Mishná - nossos sábios também indicam um incentivo, porém na direção contrária: uma “cerca” para não chegarmos ao pecado. Não devemos conversar excessivamente com uma mulher. O motivo disso é para não chegarmos a fazer algo mais grave.
Vemos, então, dois incentivos estipulados por nossos sábios: um para chegarmos a fazer a mitsvá e o outro para não chegarmos a fazer um pecado. Esta é a ligação entre as duas partes: ambas contêm incentivos a nós.
Analisemos a continuação desta Mishná, que parece tão polêmica:
A Mishná diz: “Não converse excessivamente com a mulher”. O Rabino Ovadyá de Bartenura explica que a Mishná se refere à sua própria esposa. Quanto mais a mulher do próximo! No entanto, isso exige uma explicação: Não devemos falar nem com nossa própria esposa?
Os comentaristas do Pirkê Avot explicam que as mulheres, de forma geral, são mais sentimentais e menos lógicas do que os homens. O homem se dirige na vida mais pelo lado racional. A mulher, mais pelo lado emocional. Conhecemos histórias nas quais o marido contou para sua mulher algum episódio que ocorrera com alguém, e a mulher, em vez de agir com lógica, ficou furiosa e exaltada e logo foi procurar briga e tirar satisfações.
Na própria Torá vemos isto. No episódio da rebelião de Côrach contra Moshê, a esposa de Côrach influenciou seu marido negativamente. Quando Côrach contou-lhe algo que Moshê fizera, ela ficou revoltada e incentivou-o a rebelar-se contra Moshê.
Por isso, a Mishná nos recomenda tomarmos cuidado com o que contamos às nossas esposas. Não devemos contar-lhes todos os problemas que temos. Devido à preponderância do lado emocional nas mulheres, existe a possibilidade de ela encarar o problema pelo lado pessoal e sua solução ficará muito mais difícil, talvez até criando novos problemas.
Existe, porém, uma explicação mais simples. Quem estuda Torá Escrita e Oral chega a uma conclusão bem clara: falar muito, em geral, não é bom. Quanto menos a pessoa falar, melhor. Em nossos dias, aquele que não conversa ou fala muito parece ser um sujeito meio estranho. Mas, de fato, que quem está agindo certo é este indivíduo. Devemos tentar falar o mínimo possível. Em um carro, por exemplo, parece até falta de educação a pessoa ficar quieta. Entretanto, devemos saber que podemos sim ficar quietos. Não há nada de errado nisto.
O Pirkê Avot cita adiante neste capítulo (Mishná 17): “Não encontrei algo melhor para o corpo do que o silêncio”. E no terceiro capítulo também (Mishná 13): “O caminho para a sabedoria é o silêncio”. O silêncio é uma grande qualidade.
Conta-se sobre um grande tsadic que ficava muito tempo quieto. Até que, quando se cansava, falava um pouco e logo, novamente, voltava ao silêncio.
O motivo é que, toda vez que a pessoa fala, corre o risco de falar coisas proibidas, como lashon hará (maledicência), mentiras, palavras de baixo calão, etc. Ao falar muito, aumentam as probabilidades de cair em falas proibidas. Portanto, é “saudável” que a pessoa diminua em sua fala.
Certamente não podemos chegar ao extremo de não conversar mais. O melhor caminho é o do meio. Não ficar quieto demais, mas sim falar menos!
Agora podemos compreender o sentido da Mishná. Com quem conversamos mais em nosso dia-a-dia? Com nossa família, nossa esposa. E mesmo com ela, devemos tomar cuidado com o que falamos, pois podemos chegar a falar lashon hará, mentiras ou outras coisas proibidas. Devemos sempre pensar muito bem antes de tirar qualquer palavra da boca. Talvez o que estamos prestes a dizer não deva ser dito.
Sendo assim, é claro que podemos conversar com nossa esposa, mas devemos tomar muito cuidado para não falarmos demais.
A Guemará (Chaguigá 5b) traz um versículo no qual consta que, após os 120 anos, prestaremos contas perante D’us mesmo sobre as conversas entre marido e esposa. Seu significado simples é o que foi dito acima, que não devemos conversar demais para não acabar falando impropriamente. Entretanto, os comentaristas do Pirkê Avot dizem que existe um outro significado. O que será julgado no Tribunal Celestial é como falamos com nossa esposa: se nos dirigimos a ela com respeito ou não, o nível da conversa, etc. Aprendemos, então, quão importante é o modo como conversamos com nossa mulher e o que falamos com ela.
Conta-se sobre o Rabino Shlomo Zalman Auerbach zt”l (Israel, 1910-1995) que ele respeitava muito sua esposa. A tal ponto que, quando ela faleceu, em seu velório ele disse: “O costume é que no velório da esposa, o marido lhe pede desculpas. Mas você sabe que eu não tenho do que lhe pedir desculpas.”
Alguém desavisado pensaria que é uma falta de respeito e de humildade falar dessa maneira. Porém, quem conheceu este grande rabino, sabe que entre suas muitas e excelentes qualidades estavam a humildade e o respeito aos demais. Após mais de cinquenta anos juntos, o Rabino Shlomo Zalman Auerbach zt”l, por mais espantoso que pareça, pôde dizer com certeza que não havia feito nada de errado à sua esposa! Podemos imaginar, então, o quanto ele a respeitava e tratava bem!
A continuação da Mishná traz três consequências para quem conversa muito com mulheres:
“Faz mal a si próprio”
A Guemará (Chaguigá 16a) diz que a expressão “mal” se refere ao Yêtser Hará (nossa má inclinação). Rabênu Yoná explica que o Yêtser Hará aparece de duas formas. A primeira é quando a pessoa está em sua rotina normal. Quando está estudando Torá ou trabalhando, por exemplo. O Yêtser Hará atiça-o sem que tenha feito nada de errado. O outro modo é quando a pessoa “chama” o Yêtser Hará, por meio de algo errado que tenha feito. Esta Mishná afirma que quando o homem conversa com outras mulheres (não a sua esposa) ele “chama” o mal, o Yêtser Hará, sobre si. Por meio do “bate papo” ele “convida” o Yêtser Hará e dá espaço para ele controlar o “ambiente”, podendo chegar a um dos pecados mais graves da Torá!
“Desperdiça seu tempo de estudo da Torá”
A explicação simples para isso é a seguinte: como sabemos, a mitsvá mais importante da Torá é o seu estudo. Quando a pessoa fica conversando, está perdendo tempo de estudar Torá, o que por si só não é algo bom.
Rabênu Yoná explica algo mais. Ele diz que, ao ficar de conversa com as mulheres, a cabeça do homem “desloca-se” da Torá! Não é possível o estudo de Torá “entrar”, enquanto o coração está pensando em mulheres.
Não há espaço para as duas coisas no coração do homem! Este é um motivo pelo qual muitos reclamam que não conseguem estudar Torá.
A Guemará (Ketubot 13b e Chulin 11b) diz que “Não existe apotropus (pessoa imune ao pecado) em relação ao pecado de relacionamentos ilícitos” - com relação à mulher, o homem não pode confiar que é forte e não pecará. É da natureza humana haver atração e o Yêtser Hará é muito forte. Por isso, precisamos fazer “cercas” para ficar longe do pecado: não devemos nem começar com conversas com qualquer mulher que não seja a nossa esposa.
“E está fadado a um lugar no Guehinam (inferno)”
Por quê? Tudo começa com uma conversa aqui, outra ali... a pessoa vai caindo e acaba por cometer um dos mais graves pecados da Torá, merecendo o inferno após seus 120 anos.
Muitos dizem: “Comigo não será assim!”. Mas o homem não consegue perceber o quanto o problema está evoluindo, pois vai caindo gradativamente. No final, acaba se envolvendo e pecando.
Rabênu Yoná cita um versículo em Meguilat Cohêlet (7:26) em que o Rei Shelomô diz: “Encontrei algo mais amargo que a morte: a mulher cujo coração é uma armadilha para o homem”. Em Mishlê (18:22), o mesmo Rei Shelomô diz: “Quem encontra a mulher, encontra a bondade”. Não é uma contradição?
Parece uma contradição, mas o primeiro versículo refere-se a um homem que pecou. Quando a pessoa falece, sai deste mundo e vai para o Mundo Vindouro desfrutar suas recompensas eternas. Já aquele que se envolve intimamente com uma mulher que não é a sua esposa, quando sair deste mundo não irá para o Mundo Vindouro! Seu destino será o Guehinam.
O versículo em Cohêlet diz “cujo coração é uma armadilha para o homem”. Rabênu Yoná diz que o homem que se envolve com outra mulher, fica preso à sua “rede” e não consegue se desvencilhar, pois segue atrás do que o coração pede e não pensa nas consequências que seus atos trarão. O homem que não vê problemas em “bater papo” com mulheres, acaba virando prisioneiro delas e chegando ao pecado.
Vemos portanto que o ato de pecar não começa diretamente com o pecado, mas com o que leva a pecar. Começa com o rompimento de “cercas” e com atitudes que a própria pessoa se permite, apesar de saber que são erradas. A Mishná nos diz para nem conversarmos com mulheres e, assim, não chegarmos ao pecado.
É importante frisar que não devemos ser antipáticos com as mulheres. Também não se trata de definitivamente não falarmos com elas. Deve-se usar o bom senso para saber quando falar ou não, e tentar estender a conversa o menos possível. A regra é “não conversar demais”, mas existem exceções e o bom senso deve prevalecer.
Em relação a homens não casados não conversarem à toa com moças solteiras, a proibição não somente é parte da halachá (a lei da Torá), mas também é o caminho para ele ter um matrimônio bem-sucedido e ser feliz com sua futura cônjuge. Quanto menos o homem se expõe ao convívio com mulheres antes de casar, mais chances terá de ser bem-sucedido em seu casamento!