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Pirkê Avot – Capítulo I, Mishná V

A Guemará nos diz que uma pessoa que quer ser "chassid" - bondoso - que é um degrau acima do "tsadic" - justo - deve cumprir tudo o que está escrito na "Ética dos Pais". Assim, esta seção traz, de forma simples, a sabedoria da Mishá por meio dos maravilhosos conselhos do "Pirkê Avot".

Yossi ben Yochanan ish Yerushaláyim omer yehi vetechá patúach lirvachá veyihyu aniyim benê vetecha veal tarbê sichá im haishá, beishtô ameru cal vachômer beêshet chaverô; mican ameru chachamim, col zeman sheadam marbê sichá im haishá gorem raá leatsmô uvotel midivrê Torá vessofô yoresh Guehinam.

“Yossi ben Yochanan, da cidade de Jerusalém, disse: Que sua casa esteja plenamente aberta; sejam os carentes parte de sua própria família; e não converse excessivamente com a mulher. Isto foi dito em relação à sua própria mulher, quanto mais sobre a mulher dos outros. Baseados nisto, nossos sábios disseram: Todo aquele que conversa excessivamente com mulheres faz mal a si próprio, desperdiça seu tempo de estudo de Torá e está fadado a um lugar no Guehinam (inferno).”

“Não converse excessivamente com a mulher”

Qual a conexão entre o começo da mishná - “Que sua casa esteja plenamente aberta” e o seu final - “Não converse excessivamente com a mulher”?

O Chassid Yaavets explica que o começo da mishná não está nos dizendo somente para dar tsedacá aos pobres, mas sim para recebê-los em casa. Ou seja, consolá-los, conversar com eles, dar-lhes apoio moral.

A Guemará (Ketubot 111b) ensina que quem dá dinheiro a um pobre recebe seis bênçãos. Quem o consola, por sua vez, recebe onze. Aprendemos desta guemará que ajudar um pobre financeiramente é importante, mas ajudá-lo moralmente é ainda mais. Esse é o sentido da expressão “que sua casa esteja plenamente aberta”: que recebamos o carente em casa e o tratemos como se fosse alguém de nossa família.

Por que o fato de consolar uma pessoa carente está num nível mais alto do que dar-lhe dinheiro? Quem dá dinheiro também está ajudando o pobre! Quando escolhemos um médico, é melhor aquele que cura “interiormente” do que o que cura a doença “exteriormente”. Quando a cura é exterior, somente nos sintomas, a doença acaba voltando. No entanto, quando é interior, atacando as causas da doença, a pessoa se cura de forma definitiva. Acontece o mesmo com a mitsvá de ajudar o próximo. Aquele que dá dinheiro está ajudando “exteriormente”, o que é bom, pois ao menos resolve o problema enquanto o dinheiro não acabar. Entretanto, aquele que apóia e consola, ajudando “interiormente”, está curando o pobre totalmente e para sempre, no sentido de lhe dar forças para enfrentar e superar o teste da pobreza! E este é um ato muito grande.

Todo esse comentário é do Chassid Yaavets, e ele continua explicando: Existe uma exceção nesta recomendação - quando a pessoa carente for uma mulher. Neste caso não converse tanto com ela. É claro que devemos tentar consolá-la, mas sem prolongar a conversa e passar do devido. Esta é a conexão entre estas duas frases da Mishná.

Há uma outra explicação para a ligação entre as duas partes da Mishná.

Existem pessoas que aceitam visitas em casa, o que é uma boa ação muito importante, mas não as procuram. Se lhes pedirem, elas recebem as visitas, mas não saem à procura de convidados.

Por isso a Mishná nos ensina que a porta de nossa casa deve estar sempre aberta a todos, para mostrar que estamos procurando visitas. Para que todos entendam que, se quiserem, podem entrar à vontade.

Mas “deixar a casa aberta” não é a mitsvá em si. É um meio para chegarmos a cumprir a mitsvá de receber visitas. Devemos deixar a porta aberta e, por meio disto, receberemos pessoas. É como um incentivo que nossos sábios ensinaram para chegarmos à mitsvá.

Com relação a falar com mulheres - a continuação da Mishná - nossos sábios também indicam um incentivo, porém na direção contrária: uma “cerca” para não chegarmos ao pecado. Não devemos conversar excessivamente com uma mulher. O motivo disso é para não chegarmos a fazer algo mais grave.

Vemos, então, dois incentivos estipulados por nossos sábios: um para chegarmos a fazer a mitsvá e o outro para não chegarmos a fazer um pecado. Esta é a ligação entre as duas partes: ambas contêm incentivos a nós.

Analisemos a continuação desta Mishná, que parece tão polêmica:

A Mishná diz: “Não converse excessivamente com a mulher”. O Rabino Ovadyá de Bartenura explica que a Mishná se refere à sua própria esposa. Quanto mais a mulher do próximo! No entanto, isso exige uma explicação: Não devemos falar nem com nossa própria esposa?

Os comentaristas do Pirkê Avot explicam que as mulheres, de forma geral, são mais sentimentais e menos lógicas do que os homens. O homem se dirige na vida mais pelo lado racional. A mulher, mais pelo lado emocional. Conhecemos histórias nas quais o marido contou para sua mulher algum episódio que ocorrera com alguém, e a mulher, em vez de agir com lógica, ficou furiosa e exaltada e logo foi procurar briga e tirar satisfações.

Na própria Torá vemos isto. No episódio da rebelião de Côrach contra Moshê, a esposa de Côrach influenciou seu marido negativamente. Quando Côrach contou-lhe algo que Moshê fizera, ela ficou revoltada e incentivou-o a rebelar-se contra Moshê.

Por isso, a Mishná nos recomenda tomarmos cuidado com o que contamos às nossas esposas. Não devemos contar-lhes todos os problemas que temos. Devido à preponderância do lado emocional nas mulheres, existe a possibilidade de ela encarar o problema pelo lado pessoal e sua solução ficará muito mais difícil, talvez até criando novos problemas.

Existe, porém, uma explicação mais simples. Quem estuda Torá Escrita e Oral chega a uma conclusão bem clara: falar muito, em geral, não é bom. Quanto menos a pessoa falar, melhor. Em nossos dias, aquele que não conversa ou fala muito parece ser um sujeito meio estranho. Mas, de fato, que quem está agindo certo é este indivíduo. Devemos tentar falar o mínimo possível. Em um carro, por exemplo, parece até falta de educação a pessoa ficar quieta. Entretanto, devemos saber que podemos sim ficar quietos. Não há nada de errado nisto.

O Pirkê Avot cita adiante neste capítulo (Mishná 17): “Não encontrei algo melhor para o corpo do que o silêncio”. E no terceiro capítulo também (Mishná 13): “O caminho para a sabedoria é o silêncio”. O silêncio é uma grande qualidade.

Conta-se sobre um grande tsadic que ficava muito tempo quieto. Até que, quando se cansava, falava um pouco e logo, novamente, voltava ao silêncio.

O motivo é que, toda vez que a pessoa fala, corre o risco de falar coisas proibidas, como lashon hará (maledicência), mentiras, palavras de baixo calão, etc. Ao falar muito, aumentam as probabilidades de cair em falas proibidas. Portanto, é “saudável” que a pessoa diminua em sua fala.

Certamente não podemos chegar ao extremo de não conversar mais. O melhor caminho é o do meio. Não ficar quieto demais, mas sim falar menos!

Agora podemos compreender o sentido da Mishná. Com quem conversamos mais em nosso dia-a-dia? Com nossa família, nossa esposa. E mesmo com ela, devemos tomar cuidado com o que falamos, pois podemos chegar a falar lashon hará, mentiras ou outras coisas proibidas. Devemos sempre pensar muito bem antes de tirar qualquer palavra da boca. Talvez o que estamos prestes a dizer não deva ser dito.

Sendo assim, é claro que podemos conversar com nossa esposa, mas devemos tomar muito cuidado para não falarmos demais.

A Guemará (Chaguigá 5b) traz um versículo no qual consta que, após os 120 anos, prestaremos contas perante D’us mesmo sobre as conversas entre marido e esposa. Seu significado simples é o que foi dito acima, que não devemos conversar demais para não acabar falando impropriamente. Entretanto, os comentaristas do Pirkê Avot dizem que existe um outro significado. O que será julgado no Tribunal Celestial é como falamos com nossa esposa: se nos dirigimos a ela com respeito ou não, o nível da conversa, etc. Aprendemos, então, quão importante é o modo como conversamos com nossa mulher e o que falamos com ela.

Conta-se sobre o Rabino Shlomo Zalman Auerbach zt”l (Israel, 1910-1995) que ele respeitava muito sua esposa. A tal ponto que, quando ela faleceu, em seu velório ele disse: “O costume é que no velório da esposa, o marido lhe pede desculpas. Mas você sabe que eu não tenho do que lhe pedir desculpas.”

Alguém desavisado pensaria que é uma falta de respeito e de humildade falar dessa maneira. Porém, quem conheceu este grande rabino, sabe que entre suas muitas e excelentes qualidades estavam a humildade e o respeito aos demais. Após mais de cinquenta anos juntos, o Rabino Shlomo Zalman Auerbach zt”l, por mais espantoso que pareça, pôde dizer com certeza que não havia feito nada de errado à sua esposa! Podemos imaginar, então, o quanto ele a respeitava e tratava bem!

A continuação da Mishná traz três consequências para quem conversa muito com mulheres:

“Faz mal a si próprio”

A Guemará (Chaguigá 16a) diz que a expressão “mal” se refere ao Yêtser Hará (nossa má inclinação). Rabênu Yoná explica que o Yêtser Hará aparece de duas formas. A primeira é quando a pessoa está em sua rotina normal. Quando está estudando Torá ou trabalhando, por exemplo. O Yêtser Hará atiça-o sem que tenha feito nada de errado. O outro modo é quando a pessoa “chama” o Yêtser Hará, por meio de algo errado que tenha feito. Esta Mishná afirma que quando o homem conversa com outras mulheres (não a sua esposa) ele “chama” o mal, o Yêtser Hará, sobre si. Por meio do “bate papo” ele “convida” o Yêtser Hará e dá espaço para ele controlar o “ambiente”, podendo chegar a um dos pecados mais graves da Torá!

“Desperdiça seu tempo de estudo da Torá”

A explicação simples para isso é a seguinte: como sabemos, a mitsvá mais importante da Torá é o seu estudo. Quando a pessoa fica conversando, está perdendo tempo de estudar Torá, o que por si só não é algo bom.

Rabênu Yoná explica algo mais. Ele diz que, ao ficar de conversa com as mulheres, a cabeça do homem “desloca-se” da Torá! Não é possível o estudo de Torá “entrar”, enquanto o coração está pensando em mulheres.

Não há espaço para as duas coisas no coração do homem! Este é um motivo pelo qual muitos reclamam que não conseguem estudar Torá.

A Guemará (Ketubot 13b e Chulin 11b) diz que “Não existe apotropus (pessoa imune ao pecado) em relação ao pecado de relacionamentos ilícitos” - com relação à mulher, o homem não pode confiar que é forte e não pecará. É da natureza humana haver atração e o Yêtser Hará é muito forte. Por isso, precisamos fazer “cercas” para ficar longe do pecado: não devemos nem começar com conversas com qualquer mulher que não seja a nossa esposa.

“E está fadado a um lugar no Guehinam (inferno)”

Por quê? Tudo começa com uma conversa aqui, outra ali... a pessoa vai caindo e acaba por cometer um dos mais graves pecados da Torá, merecendo o inferno após seus 120 anos.

Muitos dizem: “Comigo não será assim!”. Mas o homem não consegue perceber o quanto o problema está evoluindo, pois vai caindo gradativamente. No final, acaba se envolvendo e pecando.

Rabênu Yoná cita um versículo em Meguilat Cohêlet (7:26) em que o Rei Shelomô diz: “Encontrei algo mais amargo que a morte: a mulher cujo coração é uma armadilha para o homem”. Em Mishlê (18:22), o mesmo Rei Shelomô diz: “Quem encontra a mulher, encontra a bondade”. Não é uma contradição?

Parece uma contradição, mas o primeiro versículo refere-se a um homem que pecou. Quando a pessoa falece, sai deste mundo e vai para o Mundo Vindouro desfrutar suas recompensas eternas. Já aquele que se envolve intimamente com uma mulher que não é a sua esposa, quando sair deste mundo não irá para o Mundo Vindouro! Seu destino será o Guehinam.

O versículo em Cohêlet diz “cujo coração é uma armadilha para o homem”. Rabênu Yoná diz que o homem que se envolve com outra mulher, fica preso à sua “rede” e não consegue se desvencilhar, pois segue atrás do que o coração pede e não pensa nas consequências que seus atos trarão. O homem que não vê problemas em “bater papo” com mulheres, acaba virando prisioneiro delas e chegando ao pecado.

Vemos portanto que o ato de pecar não começa diretamente com o pecado, mas com o que leva a pecar. Começa com o rompimento de “cercas” e com atitudes que a própria pessoa se permite, apesar de saber que são erradas. A Mishná nos diz para nem conversarmos com mulheres e, assim, não chegarmos ao pecado.

É importante frisar que não devemos ser antipáticos com as mulheres. Também não se trata de definitivamente não falarmos com elas. Deve-se usar o bom senso para saber quando falar ou não, e tentar estender a conversa o menos possível. A regra é “não conversar demais”, mas existem exceções e o bom senso deve prevalecer.

Em relação a homens não casados não conversarem à toa com moças solteiras, a proibição não somente é parte da halachá (a lei da Torá), mas também é o caminho para ele ter um matrimônio bem-sucedido e ser feliz com sua futura cônjuge. Quanto menos o homem se expõe ao convívio com mulheres antes de casar, mais chances terá de ser bem-sucedido em seu casamento!