
Shelomô Hamêlech escreve em Cohêlet (3:1) que todas as coisas têm o seu tempo apropriado. Citando exemplos de elementos contrastantes, ele nota que existe um tempo para falar e um tempo para ficar em silêncio; um tempo para amar e um tempo para odiar; tempo para a guerra e tempo para a paz. Essencialmente, cabe ao homem usar sua maturidade e inteligência para guiá-lo como e quando agir.
Para Gadi Biton, a beleza da vida se personificava em grandes passeios de motocicleta. Gadi vivia no Galil, na região centro norte de Israel. Sempre que ele conseguia algum tempo livre, saía pilotando sua moto pelas estradas tortuosas das magníficas montanhas da Galiléia. Ele conhecia cada lugarejo, cada palmo daquela região. Por aquelas bandas, era raro encontrar alguém que não conhecesse o trovejar de sua máquina de cromo.
Certa tarde, Gadi estava pilotando próximo a uma pequena cidade e decidiu virar à direita no cruzamento seguinte. De repente, assustou-se ao perceber uma pequena garota correndo no meio do caminho. Ele não teve como evitar o acidente. Atingiu a pobre garota, que voou para o outro lado da rua, de encontro a uma parede de tijolos, e caiu inconsciente.
Gadi brecou a moto, saltou afoito e, cercado pelos gritos histéricos da mãe da criança e de outros pedestres, rapidamente correu para perto da criança. Muitos dos presentes bradavam ordens ao mesmo tempo, enquanto a pequena garota continuava inconsciente. Depois de alguns longos e aflitivos minutos, uma ambulância apareceu no local. Como não havia nenhum hospital naquela pequena cidade, a ambulância correu com a mãe e a criança para um centro médico a alguns quilômetros dali.
No hospital, a pequena garota ficou em coma por alguns dias. Os pais da criança estavam incontrolavelmente tristes. Gadi, por sua vez, mal estava trabalhando de tão perturbado. Ele sabia que não fora sua culpa, pois a menina tinha largado a mão da mãe e corrido para o meio da rua. Apesar disso, estava profundamente magoado pelo que tinha acontecido.
Assim, várias vezes ele repetia para quem quisesse ouvir que ele também fora vítima do terrível acidente. Ele não conseguia dormir de noite nem se concentrar de dia; não parava de pensar nas condições da pobre e inocente criança.
Certa tarde, a menina começou a despertar do coma. Primeiro reconheceu seus pais e depois, lentamente, sua memória voltou. Logo ela começou a andar e a raciocinar normalmente, como fazia antes. Finalmente, o médico anunciou que a pequena criança não sofreria nenhuma sequela permanente e que ela teria alta em breve.
No último dia em que a criança ficaria no hospital, Gadi foi visitá-la. Ao se aproximar do quarto, percebeu a mãe da criança sentada do lado de fora. Gadi se dirigiu a ela e começou a falar suavemente. Ele sabia que a senhora iria reconhecê-lo e, assim, foi direto ao assunto.
- Eu gostaria que a senhora soubesse - ele disse quase inaudivelmente - quão magoado eu me sinto em relação ao que aconteceu. Eu sei que não foi completamente minha falha, porque a garota correu para o meio da rua. Entretanto, estou me sentindo péssimo e gostaria de fazer algo pela senhora e por sua filha. Não posso fazer muito, pois não sou uma pessoa rica. Mas o que a senhora pedir eu estou pronto a atender em seu benefício ou da criança.
A jovem mãe olhou para Gadi e disse tranquila:
- Aquele dia que você estava passeando de moto era Shabat. Prometa-me que você nunca mais andará de moto no Shabat.
Gadi estava chocado. Ele nem notara que o acidente tinha acontecido num Shabat e, além do mais, o que isso tinha a ver com toda a história e com sua vontade de ajudar?
- É isso que a senhora quer de mim? - ele perguntou.
- Sim - a mãe respondeu. - Sua promessa significaria muito para mim e para minha filha!
Gadi acenou com a cabeça afirmativamente e se retirou. Ele saiu do hospital surpreso. De todas as coisas que ele imaginara que a mãe poderia lhe dizer, o pedido sobre o Shabat nunca lhe passara pela cabeça.
No Shabat seguinte, Gadi já ia pegar sua moto quando se lembrou da promessa. Então ele voltou para o seu prédio e bateu à primeira porta que tinha uma mezuzá.
Uma criança atendeu o visitante e convidou-o a entrar.
Logo que Gadi entrou, viu os membros de uma família sentados à mesa no meio da refeição de Shabat. Gadi se desculpou pela repentina intromissão e começou a explicar o motivo de sua visita.
Eu gostaria de saber... - disse hesitante. - Talvez alguém aqui saiba me explicar por que eu não posso andar de moto no Shabat?...
- O Shabat é um dia de descanso! - respondeu logo o chefe da família.
- Mas essa é a minha forma de descansar e relaxar! - Gadi protestou.
- Andar de moto pelas montanhas é tão excitante quanto calmante!
A conversa continuou amigavelmente por alguns momentos. Finalmente, o cavalheiro se levantou e disse para Gadi: - Olhe, eu não sou um homem muito estudado, mas sei que, nesta mesma rua, algumas quadras adiante, vive um rabino muito prestativo. Você deveria ir até lá! Ele poderia explicar tudo o que você quer saber sobre andar de moto no Shabat.
O conselho pareceu razoável e Gadi se dirigiu à casa do rabino. Quando o rabino abriu a porta, cumprimentou Gadi cordialmente e perguntou no que poderia ajudar. Gadi explicou que fora indicado por outra pessoa e que tinha algumas dúvidas que talvez pudessem ser esclarecidas. O rabino convidou Gadi para se juntar à refeição de Shabat. Durante a refeição eles conversaram sobre diversos assuntos.
Chegando o final da refeição o rabino não tinha advertido Gadi nenhuma vez. Simplesmente convidou-o a voltar novamente. Gadi começou a visitá-lo regularmente e, em pouco tempo, os dois já estavam estudando juntos duas vezes por semana.
Depois de alguns meses, entretanto, Gadi disse ao rabino que sairia de férias por algum tempo.
- Eu estou precisando de uma mudança - afirmou Gadi.
- E o que você está planejando? - o rabino perguntou.
- Nenhum lugar em particular; eu só quero viajar pelo país - Gadi respondeu.
- Ouça! - disse o rabino - Hoje é quinta-feira. Por que você não vai passar o Shabat em Jerusalém? Você poderia ficar em uma yeshivá chamada Or Sameach! É uma yeshivá especializada em atender pessoas com pouco conhecimento religioso. Se você passar o Shabat nesta yeshivá, poderá entender definitivamente por que você não pode andar de moto no Shabat! Eu posso arranjar tudo para você!
Gadi imaginou que poderia ser interessante e consentiu em ir.
No dia seguinte Gadi foi para a yeshivá. Ele não saiu de lá por duas semanas - todo o tempo que tinha de férias. Depois disso voltou direto para a sua cidade no Galil.
Alguns meses depois ele foi comunicar ao seu amigo rabino que tinha decidido partir da cidade. Aquelas duas semanas em Or Sameach lhe revelaram uma visão do mundo que ele nunca tivera. De agora em diante a força motora de sua vida seria o estudo da Torá e a observância das mitsvot.
Gadi se matriculou na Yeshivá, onde estudou com muito empenho. Ele ficou lá por alguns anos e tornou-se um talmid chacham. Isso mudou todo o curso de sua vida.
Nós não podemos entender por que D’us achou necessário que a pequena criança e sua família passassem pela angústia e pela dor que sofreram. Entretanto, algo parece óbvio: aquele incidente no Shabat à tarde foi o catalisador para que o jovem pegasse um caminho que ele nunca tinha percorrido - o caminho para casa!
“Crash Course in Yiddishkeit”, no livro “In the Footsteps of the Maggid” do Rabino Pessach J. Krohn.
Publicado com permissão da Mesorah Publications.