Matérias >> Edição 188 >> Comemorando III

Os Dias da Contagem do Ômer e a Ética

Rabino I. Dichi

O Aperfeiçoamento das Virtudes no Mês de Iyar

Os dias da contagem do Ômer (Sefirat Haômer) são especiais e próprios para o aperfeiçoamento dos traços de caráter, das características particulares do modo de ser do indivíduo, de sua índole e de seu temperamento, conforme consta nos livros sagrados. Assim, é certo se ocupar em subjugar o mal espiritual que há na alma, nestes dias, com a certeza de que o trabalho renderá frutos.

Traz o Gaon Rav Moshê Shächter shelita, em seu livro Venichtav Bessêfer, em nome do Chidá (em seu livro “Chadrê Baten”, Parashat Shemini):

“No começo do verão começa-se fazer tratamentos terapêuticos. Assim (também) deve (o indivíduo) fazer com as doenças da alma, para expulsar e expelir todo o bolor dos vícios que contaminam, fazer sangria de algumas idéias ruins e expandir o coração com o amor a D’us e a lógica de Sua Torá. Sobre isso, escreveram os comentaristas que o motivo de ler Pirkê Avot nesta época é para despertar à ética e ao complemeto de sua alma, assim como se procura, neste período, a cura do corpo”.

No Pirkê Avot há diversas expressões de ética, temor aos Céus, retificação dos traços de caráter e boa conduta, trazidos pelos maiores tanaím (sábios da Mishná). Aquele que o estuda, com a intenção de extrair métodos práticos de aperfeiçoamento, é capaz de se elevar muito.

“Bendito Aquele que os escolheu e ao que eles ensinam”. Quando as palavras saem da boca dos tanaím, eles certamente as cumpriram antes, da melhor forma possível, influenciando aqueles que as estudam e que se esforçam por seguir seu caminho. Este é o propósito do decreto de estudar Pirkê Avot nos meses de verão.

Uma Falha no Caráter Compromete Todo o Indivíduo

No mesmo livro consta que, sem boas qualidades de caráter, o indivíduo sequer pode ser considerado um ser humano. Isto porque todas as expressões, pensamentos, idéias, atos e preceitos cumpridos são frutos da própria pessoa, sendo que sua essência é constituída por seus bons atributos. Logo, entende-se que alguém cujo caráter é corrompido encontra-se deteriorado em seu âmago, como se sua própria essência interior estivesse falha.

Costuma-se dizer que alguém mal educado e de mau caráter “não é gente”. Esta idéia popular converge para este mesmo ponto: é como se toda a humanidade tivesse sido retirada de alguém sem boas virtudes. Às vezes, mesmo um animal é melhor que ele, uma vez que cumpre sua meta no mundo, enquanto este traiu seu propósito e não justifica ter sido criado.

Na continuação, são trazidos indícios disso nas palavras do Toledot Yaacov Yossêf: “‘Meod meod hevê shafel ruach’ - ‘Seja muito muito humilde’. Ele quis dizer: muito (meod - mem, alef, dalet - são as mesmas letras de adam - álef, dálet, mem) - ou seja, quando quiser a denominação de ‘gente’ (adam), deve fazêlo por intermédio de ‘meod’ (os dois possuem as mesmas letras em lashon hacodesh, porém em outra ordem), que é a faceta de ‘’ (o que), que também possui o valor numérico de ‘meod’”.

Sobre o versículo “Higuid lechá adam má tov” (Michá 6, 8), que traduzindo conforme o Rashi é “Disse o Criador para você, homem, o que é bom você fazer” - diz o Toledot Yaacov Yossêf o seguinte: “Quis dizer que para ele possuir a denominação de ‘adam’, ele deve ser isso mesmo - ou seja, ser humilde - conforme disse Moshê Rabênu: ‘E nós, o que somos (vanachnu má)?’. É conhecido que a humildade é a raiz de todas as virtudes”.

Isso condiz com o que foi trazido anteriormente. Encabeçados pela humildade, os bons atributos são aqueles que concedem ao indivíduo a denominação de “gente”. Logo, aquele que cai na rede da arrogância e torna-se, com isso, corrompido em diversas traços de caráter, não merece ser chamado de “gente”.

Boas Características e o Cumprimento das Mitsvot

Consta no livro Shaarê Kedushá (sháar 2), do Rabino Chayim Vital zt”l, que se deve tomar mais cuidado com más qualidades do que com o não cumprimento dos preceitos Divinos. Isso porque, possuindo bons atributos, o indivíduo facilmente chega ao cumprimento das mitsvot. Portanto, a subjugação do mau instinto está acima de tudo.

Ao se observar o que ocorre com as pessoas, percebe-se que alguém com boas virtudes cumprirá mais fácilmente as mitsvot. Ele é mais ágil quanto ao Serviço Divino, não é influenciado pelo que os outros pensam sobre ele e o que lhe move é o desejo de correr atrás delas.

Além disso, as mitsvot são uma obrigação Divina. Assim, os que são humildes e que possuem um bom caráter submetem-se muito mais facilmente a esse jugo do que aqueles que são orgulhosos, prepotentes e grosseiros. Efetivamente, D’us sequer deseja “habitar em sua morada”, pois sua própria existência contradiz o temor aos Céus e o recebimento das mitsvot.

Por um lado, os bons traços de caráter auxiliam no cumprimento dos mandamentos Divinos. Por outro, sabemos que o Criador nos ordenou diversas mitsvot e leis minuciosas de forma que elas aperfeiçoem as características de nossa alma e nos auxiliem a refinar nossos traços de caráter.

Guemará, em Massêchet Bavá Metsiá (32), trata de duas mitsvot aprendidas do mesmo versículo (Shemot 23): ajudar a carregar e a descarregar um burro. Consta lá, que se as duas situações ocorrerem ao mesmo tempo, devemos antes ajudar a descarregar, pois com isso evitamos também sofrimento desnecessário ao animal, além de ajudar o dono. Em contrapartida, ajudar a carregar, apenas estaremos auxiliando o dono do animal.

Porém, quando acontece de alguém que a pessoa gosta precisar descarregar e alguém que ela odeia precisar carregar, ela deverá, primeiramente, socorrer o segundo. Isso precisa ser feito, para subjugar o mau instinto, que incita a se vingar e a se alegrar com os problemas do outro, apesar da preferência que normal-mente possui o descarregamento.

Existe um motivo geral para preferir aquele que se odeia, em casos como este. D’us quis que as características da alma fossem suavizadas e as tendências do coração melhoradas, por influência de seus preceitos. Dizem nossos sábios: “quis o Eterno ‘lezacot’ Israel, portanto acrescentou a eles Torá e mitsvot”. Explica-se que “lezacot” vem de “lezakech”, que significa refinar as midot (características da personalidade) e purificar o coração.

Uma vez que é este o objetivo das mitsvot, quando surge a circunstância de se praticar uma mitsvá especial como ajudar um inimigo, na qual é preciso se superar, é evidente que devemos antecipar esta mitsvá a qualqur outra. Portanto, é claro que em casos especiais, nos quais há a possibilidade de se alcançar um maior refinamento, deve-se fazê-lo. O exemplo disto é a preferência que existe em carregar o burro do inimigo.

É Possível Aperfeiçoar Muito as Características

Encontra-se, em muitos ditos de nossos sábios, a idéia de ser possível aperfeiçoar-se e transformar más características em boas, às vezes de modo radical. Toda má característica se compara a uma casca, que envolve e esconde o bem que há abaixo dela. Quando se retira esta casca, aparece a alma judaica em todo seu esplendor com suas virtudes, seu caráter suave e sua agradabilidade. Seguem alguns exemplos disso:

Em Massêchet Yomá (9b) consta que Rêsh Lakish era considerado tão confiável, que aquele que tivesse o mérito de apenas conversar com ele na rua era considerado, ele mesmo, como alguém tão confiável, a ponto de fecharem negócios com ele sem a presença de testemunhas. De tão confiável, correto, detalhista e exigente quanto às mitsvot entre o homem e seu semelhante, Rêsh Lakish só conversava publicamente com pessoas íntegras.

Antes de se aproximar de Rabi Yochanan, contudo, ele era o chefe dos ladrões. Vê-se como é possível abandonar completamente o passado, alterar a conduta e se transformar na integridade em pessoa e um símbolo de retidão. Ao retirar de si a tendência ao roubo e se esvaziar do mal, surgiu nele a extraordinária característica de lealdade que o tornou célebre.

Esta é a força da Torá e da teshuvá - capazes de transformar o maior dos bandidos em um gigante de Torá, conhecido por seu cumprimento dos preceitos “entre o homem e seu semelhante”.

O próprio Rêsh Lakish diz, em Massêchet San’hedrin (58b) que aquele que levanta a mão contra seu semelhante, mesmo que não o golpeie, é considerado um perverso. Isto é aprendido do versículo “Disse ao malvado: ‘Por que bateria em seu companheiro?’” Não está escrito “por que bateu” e sim “por que bate-ria”. Deduz-se daqui que pela própria vontade de bater já se é considerado “malvado”.

Isso também demonstra a mudança na personalidade de Rêsh Lakish. Quando passou a estudar Torá, suas qualidades se elevaram de maneira irreconhecível.

Com relação a Rabi Akiva, sabemos que quando este era uma pessoa simples (sem conhecimentos de Torá), odiava tanto os estudiosos da Torá que dizia: “quem me dera chegasse um estudioso, para eu mordê-lo como morde um burro” (Pessachim 49b). Quando começou a estudar Torá, porém, ele passou a ter um intenso amor sem fronteiras por ela, tornando-se o maior sábio da geração.

Percebe-se a grande potência que se encontra no coração de cada membro do Povo de Israel. Que turbilhão de amor se revela quando este dirige sua vida para o bem!

Desta guemará parece que o mal que havia em Rabi Akiva se mostrava em seu grande ódio pelos estudiosos da Torá. Este ódio foi transformado por ele em um grande amor, que fez com que os seguisse e os servisse por muitos anos. Conforme diz a guemará em Massêchet Chaguigá (12a), Rabi Akiva serviu Nachum Ish Gam Zu e estudou com ele por vinte e dois anos, o que só é possível a alguém com um amor extremo pela Torá.

Encontramos que Rabi Akiva foi aquele que interpretou o versículo “Ao Eterno, seu D’us, você deve temer” que “ao” vem incluir, nesse preceito, o temor aos estudiosos da Torá. A imagem deles era tão elevada perante seus olhos, a ponto que os comparava - como se fosse possível - ao temor a D’us! Apenas alguém cuja existência está plena de amor à Torá, de amor àqueles que a estudam e a seus luminares é capaz de entender tão profunda-mente o valor destes últimos e temê-los.

Estes dias da Contagem do Ômer são propícios para que cada um revele o bem que há em si, retire a “casca” exterior - que por vezes é bem grossa e espinhosa - e demonstre o conteúdo da alma judaica, com suas características sublimes.

Os exemplos acima trazidos mostram como não existe um estado no qual se deve desistir ou esmorecer. É sempre possível galgar do fundo do poço às alturas mais elevadas.

Por meio de introspecção profunda, cada um é capaz de descobrir a essência de sua alma e as forças que lhe foram impressas por seu Criador, chegando a um estado no qual suas boas características tornam-se a parte revelada de sua existência. Assim, todos poderão apontá-lo e dizer: “vejam quão agradáveis são seus atos”.

Estes dias são propícios para tratar de cura. A cura da alma vem com os “remédios” apropriados: estudo de mussar, aumento de temor aos Céus, bons atos - que influenciam o interior da alma - e prece para que D’us ajude o indivíduo a se tornar parecido com Ele, conforme dizem nossos sábios: “assim como Ele é bondoso, você também será bondoso. Assim como Ele é piedoso, você também será piedoso”.

Assim, cada um poderá extrair o máximo de proveito destes dias e preparar seu coração para a festividade de Shavuot, para receber a Torá com todo o coração, com vontade e com as características da alma purificadas.