Matérias >> Edição 188 >> Criança Segura

Estou Crescendo! 0 a 3 anos

Dra. Monique Catache

Criança Segura

À medida que o bebê cresce, adquire novas capacidades motoras com riscos de diferentes acidentes. Esses riscos não se restringem aos primeiros anos de vida, mas se estendem até a adolescência. Quanto mais jovem e imatura for a criança, menor sua percepção de perigo e maior sua dependência de terceiros em termos de segurança contra acidentes e desastres.

Seguem alguns dos principais cuidados a serem tomados para evitar acidentes.

A idade frágil: 0 a 3 meses

Até os 3 meses a atividade motora do bebê é um reflexo, não é intencional. Com o passar do tempo os movimentos tornam-se mais coordenados e intencionais, adquirindo a capacidade de segurar objetos e levá-los à boca.

Nessa fase inicial, os cuidados se voltam para a hora do banho. Não se esqueça de checar a temperatura da água, utilizando o dorso da mão ou um termômetro próprio, pois a pele do bebê é muito delicada, vulnerável a queimaduras.

Cuidado com as trocas de fraldas no trocador. O movimento dos membros e tronco do bebê ocorrem juntos - “em bloco”. Assim, esses movimentos podem virar o bebê com riscos de quedas, e conseqüentemente de traumatismos cranianos.

No berço, use colchão firme e coberta leves. Dispense travesseiros; eles podem levar ao sufocamento do bebê. Jamais o bebê deve dormir na cama com um adulto, que pode se virar e sufocar o recém-nascido.

A idade do despertar: 4 a 6 meses

Essa etapa é marcada pelo aparecimento da intenção. O bebê se interessa pelas pessoas que o rodeiam. Sua capacidade de virar a cabeça fica mais precisa, o que o leva a interessar-se mais pelo ambiente que o envolve. Nessa etapa, a busca por objetos próximos é constante e, quando alcançados, seu destino final será sempre a boca. Assim, tudo que estiver ao alcance da mão tem risco de ser ingerido ou aspirado.

Sabendo disso, todos os brinquedos deverão ser supervisionados antes de serem oferecidos ao bebê. Não se esqueça de checar se existem pequenas partes que podem se soltar. Evite brinquedos desmontáveis. Verifique também se as tintas utilizadas no brinquedo não contêm chumbo e se esta não se solta.

O bebê quer agarrar tudo que está ao seu redor. Assim, devemos ter cuidado redobrado quando estamos com o bebê no colo perto de xícaras de café quente, pratos contendo alimentos quentes, panelas e outros objetos que, se alcançados, serão imediatamente puxados na direção da criança, com risco de queimaduras graves.

O tempo passa e a criança cresce. Cresce também sua  capacidade de movimentar-se. Logo, não deixe o bebê em lugares altos e preste mais atenção no trocador, pois os acidentes são mais freqüentes nessa fase. Um erro muito comum é cercar o bebê de travesseiros em uma cama comum. Isso não impede quedas, apenas leva os travesseiros junto com o bebê!

A idade da curiosidade: 7 a 12 meses

A curiosidade da criança se intensifica. Sua intenção de compreender os objetos que a rodeiam fica cada vez mais forte. As mudanças de posição do bebê são mais freqüentes. Inicialmente passa a sentar-se para, em seguida, conseguir virar-se totalmente. Com o passar do tempo, o bebê adquire a capacidade  de engatinhar (alguns bebês apenas se arrastam) e andar, no começo apoiado nos móveis, para enfim sustentar-se sozinho.

A facilidade e independência para se deslocar trazem à criança riscos de novos acidentes e novas preocupações para os pais. Portanto, a partir do momento em que a criança é capaz de se arrastar, as seguintes medidas devem ser tomadas:

 Colocar protetores nas tomadas.

 Verificar o conteúdo das gavetas baixas, principalmente se contiverem remédios, substâncias tóxicas, botões, agulhas, alfinetes ou qualquer objeto pequeno.

 Manter longe do alcance das crianças fios telefônicos, abajures e aparelhos eletro-eletrônicos. O instinto delas é puxar o fio para descobrir do que se trata, com risco de queda do objeto sobre ela.

 A partir do momento que a criança é capaz de se levantar, deve-se tomar cuidado com objetos que podem ser puxados contra o corpo da criança, como aparelhos de som e DVDs. Jamais subestime a força da criança.

 Evitar que as toalhas de mesa fiquem pendentes, pois o reflexo da criança é puxá-las para ver o que há sobre a mesa.

 A partir do momento em que conseguem se levantar no berço, a altura do estrado do colchão deve ser abaixada.

 Cuidar com os protetores de berço, que podem ser usados pela criança como uma “escada”.

 Cuidar com objetos próximos que podem ser alcançados de dentro do berço.

 Cuidar com objetos que costumam ficar nas mesas de centro.

 Manter produtos de limpeza longe do alcance da criança.

 O uso de andadores aumenta os riscos de acidentes. Eles dão mais liberdade de movimento ao bebê e podem cair sobre objetos, piscinas, aquecedores ou rolar escada abaixo.

A idade da aventura: 1 a 2 anos

Nessa fase surge o pensamento antes da ação. A criança começa a imitar os adultos e a inventar situações. Sua liberdade de movimentar-se com a aquisição da marcha torna-a uma exploradora do ambiente. Enérgicas, não param um instante. Querem conhecer tudo à sua volta. Todos os ambientes são perigosos nessa faixa de idade, principalmente porque não existe a noção do perigo. São freqüentes as quedas e os riscos de lesões quando batem em móveis, quinas e superfícies ásperas.

A cozinha, por sua diversidade de objetos, é palco para muitos acidentes. Preferencialmente, deve-se optar por cozinhar nas bocas posteriores do fogão e jamais deixar cabos de panelas para fora do mesmo. Utensílios com conteúdo quente na parte anterior da pia também oferecem grande perigo. Deve-se cuidar com os materiais cortantes (facas, tesouras, espetos), pois a criança tende a imitar as ações dos pais, correndo o risco de ferimentos graves.

A área de serviço deve ser supervisionada para que os produtos de limpeza sejam acondicionados em prateleiras altas. Jamais deixe baldes com água no chão. Caso a criança caia de cabeça, não terá capacidade de sair, podendo afogar-se.

As escadas devem ser fechadas com portões de segurança. As janelas devem estar equipadas com redes firmes ou grades. Evite levar o bebê à janela para mostrar a rua. Mesmo sendo seguro em locais com rede, esse hábito pode levar a criança a procurar outras janelas sem proteção.

Portas de banheiros devem permanecer fechadas e vasos sanitários tampados, para evitar que a criança brinque nessa água. Além disso, existe o risco de queimadura com água quente ao mexer nas torneiras. Mantenha objetos cortantes, como tesouras e lâminas, fora do alcance das crianças.

Nos jardins, preste atenção para evitar que a criança coloque plantas na boca, pois muitas delas são venenosas ou causam alergias.

Muita atenção nas piscinas! A busca pelo desconhecido e a falta de crítica sobre o perigo faz com que as crianças se atirem na água. Mesmo as crianças que fazem natação necessitam de supervisão. Manter as crianças com bóias é uma boa opção para evitar riscos maiores.

A idade da independência:

2 a 3 anos

O pensamento se mantém semelhante ao da fase anterior, mas as experiências se ampliam, bem como sua capacidade motora.

É a fase de “alpinista”: sobe em cadeiras, sofás e mesas. O objetivo é explorar um mundo que está acima da sua linha de visão.

A criança começa a ter mais controle pessoal. Tende a imitar os pais. Pode-se ensiná-la alguns tópicos de segurança, como recolher os brinquedos em local próprio de armazenamento para evitar quedas. Ensine os perigos da rua e mostre as formas corretas de atravessar, começando precocemente seu treinamento.

Ensine os riscos de tomar um choque ao mexer com tomadas e cabos elétricos. Cuide com o ferro de passar roupa.

Preste atenção a brinquedos que desmontam e oriente seu filho a partilhar brinquedos com amigos.

Não deixe que seu filho carregue objetos pontiagudos ou contendo líquidos quentes. Jamais deixe sacos plásticos ao alcance das crianças, para evitar sufocamentos.

O lar constitui uma inesgotável fonte de riscos para as crianças. É no seu interior que a maioria dos acidentes acontece. Assim, cabe aos pais uma cuidadosa avaliação do ambiente, modificando e ajustando o mesmo para receber esse novo membro da família ávido por realizar novas descobertas.

Lembre-se que a palavra de ordem é manter uma atenção redobrada: a criança precisa de proteção o tempo todo e, por isso, deve ser supervisionada. Quando necessitar realizar outras tarefas, coloque a criança num cercadinho em local próximo. Dessa forma, a grande maioria dos acidentes pode ser evitada.

Monique Catache é Mestre em Pediatria pela FMUSP e neonatologista do Hospital Samaritano