
Os estudantes de um determinado dormitório universitário começaram a dar falta de vários pertences pessoais.
Efráyim, um dos jovens lesados, desconfiou que Dan, que dormia no quarto ao lado, era quem estava praticando os furtos. Efráyim decidiu ficar de olho em Dan. Não demorou muito tempo para ele constatar que sua suspeita estava correta. Efráyim passou a segui-lo e conseguiu observá-lo levando diversos produtos roubados para o seu quarto.
Agora só faltava descobrir onde era o local secreto que Dan guardava o “fruto de seu serviço”.
Então, Efráyim bolou um plano para descobrir onde Dan guardava o roubo. Ele realizou uma festa com uma suntuosa refeição, regada a muita bebida.
Como dizem nossos sábios, “Entra o vinho e saem os segredos!”.
O resultado foi um sucesso! Com um “empurrãozinho” de Efráyim, Dan ficou totalmente bêbado e revelou todos os ítens que havia furtado e o local onde os guardava.
Terminada a festa e após ter recuperado os produtos roubados, Efráyim ligou para o seu rabino com a seguinte pergunta: “Será que eu tinha permissão de agir desta forma? Será que foi correto embebedar Dan para conseguir a informação? Será que foi correto embebedá-lo, causando que perdesse a mitsvá de fazer o Bircat Hamazon - a oração no final de uma refeição com pão - e também perder o horário e o minyan da reza matutina do dia seguinte?
Seria permitido utilizar este tipo de artifício para reaver os objetos roubados?
O veredicto
A Guemará conta o seguinte caso no Tratado de Yomá (83b):
“Certa vez, Rabi Meir, Rabi Yehudá e Rabi Yossi estavam viajando juntos. Rabi Meir sempre prestava atenção no nome do dono dos lugares onde ele se hospedava. Caso fosse um nome não agradável, ele tomava precauções e mais cuidado com o estalajadeiro.
“Rabi Yehudá e Rabi Yossi não prestavam atenção nisso.
“Ao chegarem num determinado local para pernoitarem, perguntaram ao dono da hospedaria como ele se chamava. O homem respondeu que seu nome era ‘Kidor’.
“Há uma passagem na Torá que sugere uma conotação muito ruim para este nome (Devarim 32:20): ‘Ki dor tahpuchot hema, banim lô emun bam - pois geração de perversidade é ela, filhos em que não há lealdade’.
“Sendo assim, Rabi Meir começou a tomar muito cuidado com aquela pessoa.
“Antes do início do Shabat, Rabi Yehudá e Rabi Yossi depositaram suas carteiras sob os cuidados de Kidor, para que ele as guardasse até o término do Shabat. Rabi Meir não deixou sua carteira com ele. Em vez disso, foi até o cemitério local e escondeu-a lá, próximo ao túmulo do pai de Kidor, sem que ninguém soubesse.
“Naquela noite, o falecido pai de Kidor foi até seu filho num sonho, dizendo para ele ir até o cemitério pegar uma carteira que haviam colocado lá, perto da sua cabeça.
“No dia seguinte, Kidor contou para os ilustres sábios o sonho que tivera com seu pai. Rabi Meir, querendo tirar a ideia da cabeça de Kidor, disse a ele que os sonhos de Shabat geralmente não têm significado, uma vez que são oriundos do descanso especial que se tem neste dia, sendo portanto vãos e vazios. Então, Rabi Meir se dirigiu ao referido túmulo e ficou de vigília o dia inteiro. Ao término do Shabat, retirou seu dinheiro de lá.
“No domingo de manhã, Rabi Yehudá e Rabi Yossi pediram a Kidor que lhes devolvesse as carteiras que haviam sido depositadas com ele antes do Shabat. Para sua surpresa, Kidor alegou que os sábios não haviam deixado nenhuma carteira com ele.
“Rabi Meir perguntou a seus colegas por que eles não desconfiaram do nome daquele homem. E eles perguntaram a Rabi Meir por que ele não os avisou para se cuidarem. Rabi Meir respondeu que quando analisou o nome, percebeu que não era bom e que levantava suspeitas. Porém, tomar cuidado é uma coisa e taxá-lo premeditadamente de malvado é outra! Como ele poderia adverti-los para cuidarem-se do homem, se era apenas uma suspeita que teve ao analisar seu nome?
“O que fizeram então Rabi Yehudá e Rabi Yossi? Eles convenceram Kidor a acompanhá-los a uma taverna para darem-lhe vinho, com a esperança que ele revelasse onde havia escondido o dinheiro.
“Na taverna, Kidor começou a mexer no seu vasto bigode. Rabi Yehudá e Rabi Yossi perceberam que de lá saiu um grão de lentilha e tiveram uma ideia. Eles foram até a esposa de Kidor e disseram-lhe que seu marido pedira que ela devolvesse as carteiras deles. Como prova de que seu marido realmente os enviou, disseram que ele lhes dera um sinal: que havia almoçado lentilhas com ela naquele dia. A esposa de Kidor acreditou neles e entregou-lhes as carteiras.”
Deste relato constatamos que é permitido embebedar um ladrão para reaver o que ele roubou.
Também é plausível afirmar que, mesmo que alguma mitsvá acabe sendo perdida - como a recitação do Bircat Hamazon ou da oração matutina - seja permitido agir assim. Isso porque em relação à proibição de roubar, o infrator transgride a mitsvá de “devolver o produto roubado” a cada instante. Um ladrão precisa fazer esta mitsvá a cada momento em que o roubo se encontra em seu poder, o que não acontece em relação às demais mitsvot. Portanto, é uma mitsvá afastá-lo desta grande transgressão.
Do semanário “Guefilte-mail”
([email protected]).
Traduzido de aula ministrada pelo Rav Hagaon Yitschac Zilberstein Shelita
Os esclarecimentos dos casos estudados no Shulchan Aruch Chôshen Mishpat são facilmente mal-entendidos. Qualquer detalhe omitido ou acrescentado pode alterar a sentença para o outro extremo. Estas respostas não devem ser utilizadas na prática sem o parecer de um rabino com grande experiência no assunto.