Yehoshua ben Perachyá Venitai Haarbeli kibelu mehem. Yehoshua ben Perachyá omer: Assê lechá rav ucnê lechá chaver vehevê dan et col haadam lechaf zechut.
“Yehoshua ben Perachyá e Nitai Haarbeli receberam deles (dos rabinos mencionados na mishná 4). Yehoshua ben Perachyá diz: Escolha um rabino para você, adquira um amigo, e julgue toda pessoa favoravelmente.”
Esta mishná nos traz a próxima geração de sábios e os conselhos que ofereceram à sua e às futuras gerações. Esta ainda é uma das primeiras gerações da era da Mishná.
“Escolha um rabino para você”
A Mishná nos diz que cada um deve escolher um rabino para si. Isso é muito importante, pois o rabino é alguém em quem podemos confiar e seguir suas palavras - mesmo que não entendamos o porquê - por dois motivos: o primeiro são seus anos de estudo de Torá. A sabedoria, a clareza de pensamento e o bom senso adquiridos e desenvolvidos com anos de estudo lhe asseguram uma probabilidade de erro na análise dos problemas muito menor que a de pessoas leigas. O segundo motivo, explicam os nossos sábios, é que quando um rabino responde a uma pergunta que lhe foi proposta, ele recebe ajuda dos Céus para respondê-la da maneira correta. Portanto, devemos segui-lo, até em caso de não concordarmos.
O Rambam acrescenta um novo ângulo a esta explicação: devemos escolher para nós um rabino mesmo que ele saiba menos do que nós. Qual é o intuito disto? O que ganharíamos se a pessoa sabe menos do que nós?
Explicam os nossos sábios, que muitas pessoas têm a mania de achar que sempre sabem mais do que os outros. Não aceitam o que o outro tem a dizer, não se interessam em ouvir e não modificam suas idéias. Isto é algo visível em escolas e yeshivot, onde há alunos que mal escutaram o que o professor disse e já estão procurando o que responder em contrapartida. Este não é um comportamento raro nos ambientes de trabalho em geral também.
Assim, a mishná nos diz para escolhermos e acatarmos um rabino, não importa qual seja o seu nível. Desta forma nos acostumaremos a escutar o que o outro diz e a aceitar suas idéias, apesar de não pensarmos como ele. Esta é uma maneira de modificar a má característica de não aceitar o que os outros dizem, de aumentar a humildade.
Apesar de nossa mishná estar tratando especialmente sobre o estudo da Torá, ensinando que só podemos estudá-la com um rabino que nos guie em suas profundezas, seu ensinamento se aplica a outras áreas de nossas vidas também. É sempre bom que a pessoa consulte um rabino, confie nele e saiba o que é correto fazer.
Entretanto, devemos saber que é errado fazer a mesma pergunta a vários rabinos e escolher a resposta que mais nos convém. A pessoa que age desta forma está se enganando e agindo contra o conceito de “emunat chachamim” - crença em nossos sábios. A mishná nos recomenda escolhermos um único rabino, não importando se concordamos ou não com o que ele diz.
“Adquira um amigo”
É interessante observarmos que a mishná usa o termo “adquira”. Por quê? Explicam os comentaristas do Pirkê Avot que é tão importante ter um bom amigo, que seria até necessário gastarmos dinheiro para ter um. Por uma boa amizade, devemos comprar-lhe presentes, agradá-lo, etc.
Por que é tão importante um amigo? O Rabênu Yoná cita três motivos:
Primeiro, para estudar Torá. É muito melhor quando se estuda em dupla do que sozinho. Uma pessoa sozinha pode se enganar, não conseguir entender algo ou chegar a uma conclusão falsa. Um amigo ajuda a pensar e entender melhor. Duas cabeças sempre pensam melhor do que uma.
A Guemará no Tratado Taanit (7a) conta sobre um rabino que disse: “Aprendi muita Torá de meus rabinos. De meus amigos mais do que deles, e de meus alunos, mais ainda do que todos (os anteriores)”. Vemos que, às vezes, podemos aprender mais de nossos amigos do que dos rabinos. Há ocasiões em que temos vergonha de perguntar ao rabino - e não ao amigo.
Um bom “chavruta” - colega de estudo - é muito importante. E quem é considerado “bom”? Poderíamos pensar que o melhor aluno da classe ou da sinagoga é o melhor chavruta para nós. A verdade é que um bom colega de estudo é aquele que é sério e estuda da mesma forma que estudamos. Nem sempre precisamos estar com os melhores da sala. O Rabino Koppelman sempre dizia que é melhor estudar com um chavruta que saiba um pouco menos do que nós, para podermos explicar o estudo para ele. Ao explicarmos, acabamos ficando com uma visão mais clara do assunto e aprendendo mais.
Continua o Rabênu Yoná explicando que um bom amigo também é importante para o cumprimento das mitsvot. Quando se tem amigos, um pode chamar a atenção do outro caso fizer algo de errado. Normalmente, a pessoa não corrige a si mesma, justificando o que fez por algum motivo. Mas o bom amigo faz recomendações ou críticas, procurando o nosso bem e ajudando-nos a melhorar.
O terceiro motivo citado pelo Rabênu Yoná para se adquirir um bom amigo é para receber conselhos. É muito importante ter alguém com quem compartilhar nossos pensamentos e pedir conselhos quando não conseguimos tomar decisões difíceis sozinhos.
Existe, porém, um quarto motivo: há coisas que não conseguimos fazer sozinhos. Quando um amigo se junta a nós, podemos realizar muito mais do que queríamos em princípio. Duas forças unidas valem muito mais do que as mesmas duas separadas. Tão importante é ter amigos que a mishná se expressou dizendo até para “comprá-los”, seja com presentes ou dinheiro, seja com conversas.
O trecho final trazido pela guemará citada acima (Taanit 7a) - “e de meus alunos, (aprendi) mais ainda do que de todos” - tem uma explicação muito interessante. O Staipler, Rabino Yaacov Israel Kanievski zt”l (Rússia e Israel, 1899-1985) explicou que quando um rabino prepara uma aula é como se tivesse revisado a matéria vinte vezes! Ao explicar e passar para seus alunos, a matéria lhe fica cada vez mais clara. Ao responder as perguntas dos alunos, ele é obrigado a pensar mais sobre o assunto, fazendo com que aprenda ainda mais sobre a matéria.
Os comentaristas do Pirkê Avot fazem uma pergunta neste contexto. A guemará citada (em Taanit) diz: “Aprendi muita Torá de meus rabinos. De meus amigos mais do que deles, e de meus alunos, mais ainda do que de todos”. Já a nossa mishná prescreve: “Escolha um rabino e adquira um amigo”. Se os alunos são tão importantes, por que esta mishná não cita nada sobre eles? Por que não diz: “e escolha” alunos?
A resposta simples a esta pergunta é que a primeira mishná deste capítulo já indicou: “Tenham muitos discípulos”. Mas há uma resposta mais interessante e profunda: não dá para simplesmente “pegar” alunos. Se alguém quer estudar, o rabino pode ensinar e, então, forma-se um relacionamento rabino-aluno. Entretanto, todo ser humano tem seu livre-arbítrio, e cada aluno segue o rabino com quem mais se identifica e gosta. A escolha não depende de quem ensina (o rabino) e sim de quem aprende (o aluno).
“E julgue toda pessoa favoravelmente”
Esta é uma das maiores mitsvot da Torá, como está escrito (Vayicrá 19:15): “Com justiça julgarás o seu povo”. É extremamente louvável procurar pontos positivos e julgar as pessoas por esta ótica.
Por que a Torá pede para julgarmos favoravelmente os demais? Está certo que não podemos falar mal do próximo, pois acabaríamos prejudicando-o. Mas se penso mal de alguém comigo mesmo e não comento com ninguém, qual o problema? Que diferença estou causando para o próximo?
A resposta é que existem muitas mitsvot de chêssed (bondade) na Torá e todas envolvem a mitsvá de termos um “bom coração”. Além de um coração bom, a pessoa deve ter também um “bom cérebro”. O cérebro que julga favoravelmente os demais por meio de parâmetros positivos é um cérebro bom. Ao ajudar os demais, não só fazemos o bem com o nosso coração, mas também com um cérebro bom.
Como é possível julgar para o lado positivo alguém que está fazendo coisas erradas? Como a Torá pode pedir uma coisa aparentemente impossível?
A resposta está na própria Mishná: Sua linguagem literal é “e julgue todo o homem favoravelmente”. O que quer dizer “todo” o homem? O Rabino Privalsky foi diretor da escola de meninas Beit Jacob e da Escola Beit Chinuch em São Paulo na década de 60. Ele responde a esta pergunta da seguinte forma: A Mishná quer nos ensinar para não julgar o ato aparentemente errôneo que o sujeito está fazendo por si só, em separado, mas que levemos em consideração “todo o pacote”, toda a pessoa com seus problemas, seu momento, sua situação financeira, etc. Ou seja: temos que julgar todo o homem, com toda a sua história de vida e todas as suas características. Somente assim poderemos abrir lugar para ver com bons olhos o que a outra pessoa fez.
Há mais uma resposta a esta pergunta. Os comentaristas do Pirkê Avot trazem a seguinte parábola: Quando perdemos um diamante ou qualquer bem de muito valor em casa, procuramos e procuramos, podendo chegar a revolver o mesmo lugar dez vezes. Qual a lógica nisso? Se já procuramos lá nove vezes e vimos que não estava! Para que verificar novamente? Quando queremos muito algo, fazemos de tudo para consegui-lo, mesmo que a chance de sucesso seja mínima.
Assim também com o próximo: se gostamos da pessoa, devemos procurar e procurar, até encontrar algo de bom, algum lado meritório, por mais ilógico que seja.
Mas o que tem a ver esse ensinamento com o começo da mishná?
Existem pessoas que têm muita dificuldade em encontrar um rabino ou amigo, pois vêem defeitos em todos! Aos seus olhos críticos, todos têm algo de errado, e não encontram ninguém bom o suficiente com quem aceitem compartilhar sua amizade ou aprender algo. Como remédio para isso, a Mishná nos diz: “Julgue as pessoas favoravelmente”. Somente ao julgarmos as atitudes dos demais com olhos positivos é que eles poderão cair em graça aos nossos olhos.