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Pinceladas Históricas

Em que contexto aconteceu a revolução judaica contra os gregos?

No mundo antigo, a Grécia não era como a conhecemos hoje, mas um conglomerado de cidades-estado, frequentemente guerreando entre si. As duas cidades-estado principais eram Esparta e Atenas, que estavam sempre em luta pelo controle da península grega.

O quarto e quinto séculos antes da Era Comum formaram a idade de ouro do helenismo. Sua cultura estava enraizada no teatro, nas competições, nos grandes ginásios esportivos, no pensamento político, nas novas formas de governo e, acima de tudo, na filosofia grega e na veneração da lógica humana. Atenas era o centro deste grande período de desenvolvimento cultural. Foi esta a cultura que entrou em choque com o judaísmo na época de Chanucá.

Em 338 a.e.c., Filipe da Macedônia invadiu a Grécia e conquistou suas cidades-estado, incorporando-as ao Império Macedônio. Seu filho Alexandre, o Grande, aumentou imensamente o império, difundindo o helenismo e o pensamento aristotélico desde a Grécia até a Índia, passando pelo Egito e por Israel. Foram as tropas de Alexandre, o Grande, que em 332 a.e.c. levaram  o helenismo a Jerusalém e ao povo judeu.

Com a morte de Alexandre, em 323 a.e.c., o Império Macedônio foi dividido entre seus três principais generais, ficando com Ptolomeu o controle sobre Israel e o Egito. O Rei Ptolomeu também era um amante do helenismo. Suas leis eram às vezes tolerantes para com o judaísmo e, às vezes, tirânicas ao defender a cultura grega. Foi durante este período que grande número de judeus começaram a assimilar a cultura grega em suas vidas. Embora a maioria dos judeus permanecesse fiel à Torá e ao judaísmo, o crescimento do helenismo inevitavelmente acarretou conflitos internos entre os judeus. O Império Ptolemaico governou Israel durante mais de um século, de 301 a.e.c. a 199 a.e.c.

O ano em que tudo se complicou para os judeus foi o de 199 a.e.c.. Naquele ano, a dinastia Selêucida (Seleucus foi um dos generais que herdaram parte do império de Alexandre, o Grande) que governava a partir de Antióquia, na Síria, arrancou o controle de Israel da dinastia Ptolemaica. Durante o governo Selêucida, foram decretadas leis rigorosíssimas contra a prática do judaísmo. Foi neste período, também, que o estudo da Torá e a correta observância do judaísmo começaram a apresentar risco de vida. A força redobrada da assimilação helenista e da opressão greco-síria representaram uma grande ameaça à continuidade da vida judaica tradicional.

Jerusalém, o centro espiritual do judaísmo, com seu Templo Sagrado, grandes academias de estudo de Torá e grande população judaica, era o alvo natural dos decretos antissemitas. Por essa razão, Matityáhu, o sábio e justo chefe da família Chashmonaí, mudou-se com sua família para a cidade de Modiín. Mas o império do terror os seguiu até lá.

Algum tempo depois, um batalhão grego chegou a Modiín e insistiu que os judeus oferecessem um sacrifício a seus deuses pagãos. Matityáhu, sendo um dos cidadãos mais respeitáveis da comunidade, foi o convocado para servir de exemplo a todos os demais habitantes da cidade. Matityáhu recusou-se a cumprir a ordem mas, enquanto discutiam, um outro morador se ofereceu para fazer o sacrifício. Matityáhu, tomado de enorme fúria, desembainhou sua espada, matou o traidor e atacou os soldados gregos. Em poucos minutos todos os gregos estavam mortos. A revolta judaica havia começado (167 a.e.c.).

Matityáhu faleceu um ano depois e não teve a oportunidade de ver o sucesso da revolta que iniciara. Seu filho Yehudá tornou-se, então, o líder da família e da revolta.

No ano de 166 a.e.c., o Rei Antíoco conquistou Jerusalém. Ele convocou seus ministros e lhes disse: “Vocês sabem que os judeus que moram em Jerusalém não adoram nossos deuses, não observam nossas crenças e não obedecem às nossas leis. Vamos invadir a cidade e romper o laço que existe entre os judeus e seu D’us com o Shabat, o rosh chôdesh (início de mês no calendário judaico) e a circuncisão”.

A ideia agradou a seus ministros e chefes militares. Antíoco enviou, então, seu ministro Nicanor e um bem armado exército para Jerusalém. Eles conseguiram invadir a cidade e matar muitos judeus, construíram um altar dentro do Bêt Hamicdash (o Templo Sagrado), abateram um porco e fizeram uma oferenda no átrio do Templo.

Quando Yochanan, o terceiro filho do sábio e justo sumo sacerdote Matityáhu, soube do ocorrido, fez uma espada de duas pontas e escondeu-a em suas roupas. Dirigiu-se à casa de Nicanor e exigiu uma audiência, a qual lhe foi concedida.

Ao se defrontar com Yochanan, Nicanor lhe disse: “Você é um daqueles que se rebelaram contra o Rei Antíoco?” Yochanan lhe respondeu: “Sim, eu era. Mas agora desejo lhe obedecer.”

Então Nicanor lhe disse: “Pegue um porco, sacrifique-o sobre o altar, e aí eu o vestirei com a túnica real. Você montará o cavalo do rei e será amigo do rei”. Ao ouvir essas palavras, Yochanan lhe confessou: “Temo a reação dos outros judeus, pois ao saberem disso irão me matar. Cumprirei sua ordem, mas quero que todos saiam do recinto, para que não haja espectadores do que vou fazer”.

Quando chegaram no Templo, enquanto Nicanor esvaziava o salão, Yochanan dirigiu uma prece aos Céus: “Oh, meu D’us, D’us de Avraham, Yitschac e Yaacov, não me entregue nas mãos deste gentio, pois se ele me matar, irá se gabar no seu templo pagão e escarnecer do Senhor. Entregue-o em minhas mãos”. Então Yochanan tirou sua espada e matou Nicanor no átrio do Templo. Depois, dirigiu-se a D’us, dizendo: “Senhor do Universo, não me condene como criminoso por tê-lo matado neste recinto sagrado. Seja Sua vontade que, do mesmo modo que ele morreu, morram todos aqueles que querem sitiar Jerusalém”.

Yehudá, o primeiro filho de Matityáhu, um brilhante líder, organizou uma força de batalha conhecida como Macabim. Foi sob sua inspiradora liderança que os judeus se confrontaram com os gregos e recapturaram o Templo - D’us entregou muitos nas mãos de poucos. Quando as forças judaicas vitoriosas entraram no Templo Sagrado, somente encontraram azeite suficiente para acender a grande Menorá por apenas um dia. Então, mais um milagre aconteceu: aquela quantidade de óleo, suficiente para apenas um dia, ardeu por oito dias.