Raban Gamliel hayá omer: Assê lechá rav vehistalec min hassafec, veal tarbê leasser umadot.
“Raban Gamliel disse: ‘Escolha para si um mestre e livre-se das dúvidas; e não dê dízimos a mais por causa de estimativas.’”
Raban Gamliel era o neto de Hilel Hazaken e o “nassi” - o presidente da academia rabínica e líder espiritual do povo durante sua época.
Ele era chamado de “raban” - nosso rabino - em vez de simplesmente “rabino”. Este era um título destinado aos nessiim, que foram, quase todos, descendentes de Hilel durante o período da Mishná e da Guemará.
Os comentaristas do Pirkê Avot explicam que esta mishná se dirige a um rabino a quem foi proposta uma pergunta. Se ele estiver inseguro quanto à resposta, deve consultar-se com outro rabino e responder com a máxima certeza.
O Rabênu Yoná explica que o trecho final - “não dê dízimos a mais por causa de estimativas” - trata do mesmo assunto. Que ao dar seu dízimo, a pessoa deve calculá-lo com exatidão, não por avaliação (fazer uma estimativa aproximada), mesmo que entregue até mais do que devia.
O mesmo vale para tudo na vida. A pessoa deve procurar fazer tudo com exatidão e não basear-se em estimativas ou por aproximação.
Shim’on benô omer: Col yamay gudálti ben hachachamim velô matsáti laguf tov misheticá. Velô hamidrash hu haicar ela hamaassê. Vechol hamarbê devarim mevi chet.
“Shim’on, seu filho (de Raban Gamliel, da mishná anterior) disse: ‘Toda a minha vida fui criado entre sábios e não encontrei nada melhor para o corpo que o silêncio. O estudo (de Torá) não é o principal, mas sim a prática. Aquele que fala demais ocasiona o pecado.’”
“Não encontrei nada melhor para o corpo que o silêncio”
Raban Shim’on ben Gamliel era o príncipe do Povo Judeu na época. Ele nos ensina que o silêncio, pela ótica da Torá, é algo extremamente louvável. Tanto assim, que a Guemará (Tratado de Chulin 99b) nos ensina que a profissão que a pessoa deveria aspirar neste mundo é a de “mudo”.
O Rambam explica que esta mishná não está tratando de falas proibidas, como lashon hará (difamações), mentiras ou “devarim betelim” (conversas fúteis), pois todos sabem que não são permitidas. O que Raban Shim’on veio nos ensinar é que, mesmo em situações em que a pessoa pode falar, se possível, que não fale. E caso não tenha outro jeito, que diminua a quantia de palavras. A regra é: quanto menos falar, melhor!
Ele acrescenta que não falar muito é um sinal de inteligência; e falar demais é um sinal de tolice.
A novidade que aprendemos desta mishná é que o silêncio é bom para o físico do homem e não apenas para a sua alma, como está escrito: “Não encontrei nada melhor para o corpo que o silêncio”. A pessoa entra em muitos problemas ou brigas por causa da fala - e depois se arrepende. Porém, neste caso já causou um estrago irreversível e uma enorme dor de cabeça. O silêncio, portanto, ajuda a evitar muitas dores de cabeça!
Porém, há quem explique de um modo diferente as palavras “para o corpo”. Em relação a assuntos ligados ao benefício do corpo - como alimentos, carros, viagens e outras coisas ligadas ao mundo material - é melhor fazer uso do silêncio. Já em relação à Torá esta regra não se aplica.
É importante salientar que o silêncio referido pela mishná abrange diversos “tipos” de silêncio: O silêncio quando acontece algo desagradável e a pessoa não reclama contra D’us; o silêncio ao ser ofendido e não retrucar; o silêncio ao ouvir uma crítica, quando a pessoa deve ficar quieta mesmo que a outra não tenha razão, etc.
Conta-se uma história sobre o Sefat Emet (Rabino Yehudá Leib Alter, Polônia 1847-1905), o segundo Rebe da dinastia de Gur, que quando criança ficou acordado a noite inteira estudando Torá com um colega. Foram dormir no final da madrugada e não conseguiram acordar para Shachrit, a prece matinal. O avô do Sefat Emet, o Rabino Yitschac Meir Rothenberg Alter, conhecido como Chidushê Harim (Polônia, 1799-1866 - fundador da dinastia de Gur) foi acordá-lo depois da reza, dando-lhe uma lição de mussar por ter perdido a reza com o minyan. O menino permaneceu em silêncio, ouvindo a bronca do avô. Ao final, seus amigos perguntaram por que ele não disse ao avô que sua falta era justificável, uma vez que havia passado a noite estudando Torá. Com certeza o avô entenderia e talvez até iria elogiá-lo. O Sefat Emet respondeu o seguinte aos amigos: “Eu tive a sorte de ouvir palavras de mussar de meu grande avô e vocês queriam que eu o interrompesse e perdesse a oportunidade?”.
Conforme explica o Gaon de Vilna sobre o silêncio, quando alguém tem algo a falar, mas se segura e não fala, torna-se merecedor de uma recompensa tão grande, que nem os anjos celestiais têm condição de avaliá-la.
Nossos livros sagrados ensinam que o jejum ajuda a perdoar os pecados da pessoa. Esta era uma prática comum na época da Guemará. Hoje em dia, que não temos forças físicas para tantos jejuns, o Gaon de Vilna ensina que um “jejum de palavras” corresponde a muitos jejuns de alimentação.
“O estudo (de Torá) não é o principal, mas sim a prática”
Esta mishná ensina que o principal na vida é fazer as mitsvot na prática - e não apenas estudá-las. A Guemará (Berachot 17a) cita que é muito grave estudar sobre as mitsvot e não colocá-las em prática.
O comentarista Bartenura explica que a ligação entre este trecho e o anterior (sobre o silêncio) é que, mesmo quando se trata de assuntos de Torá, onde é louvável que a pessoa fale, o intuito da fala deve ser o de colocar os estudos (a teoria) na prática, e não apenas “falar por falar”.
O Chatam Sofer traz uma explicação diferente sobre este trecho da Mishná, dizendo que ela discute qual a melhor maneira de repreender o próximo e educá-lo. A mishná ensina que o método ideal não é falando muito, mas sim demonstrando o caminho certo por meio do exemplo pessoal.
“Aquele que fala demais ocasiona o pecado”
Estas palavras parecem estar a mais, pois já se tratou sobre o excesso de fala no início da mishná.
Os comentaristas do Pirkê Avot explicam que este trecho trata de algo completamente diferente: Esta frase nos ensina a não aumentar sobre o que consta na Torá. Aquele que acrescenta, além de não cumprir nem o que está escrito, pode acabar pecando.
Do livro “Mussar Avicha”.