O Estimado Preceito das Luzes de Chanucá
Consta no Ramban, no início desta porção semanal: “Uma vez que as doze tribos fizeram um corban (uma oferenda na inauguração do Mishcan) e a tribo de Levi não fez um corban (Aharon ficou triste). Disse D’us a Moshê: ‘Fale com Aharon e lhe diga: há uma outra inauguração, na qual há acendimento de velas e na qual Eu farei a Israel milagres e maravilhas - é a inauguração dos Filhos da Dinastia dos Chashmonaím (que redimiram o Templo das mãos dos gregos, em Chanucá)’”.
Ao ver que todas as tribos traziam oferendas e honravam a D’us, sem que tomasse parte nisso, Aharon temeu que sua tribo não tivesse o mérito de poder fazê-lo. Respondeu-lhe o Eterno que, no futuro, haveria mais uma inauguração do altar, na qual os sacerdotes da Casa dos Chashmonaím agradeceriam a Ele por todos os milagres e pela salvação, que concedeu ao Povo de Israel, em Chanucá.
O assunto principal do acendimento das velas de Chanucá é a difusão do milagre. Assim escreve o Rambam (Hilchot Chanucá, capítulo 4, halachá 12):
“O preceito da luz de Chanucá é um preceito muito querido. É necessário que o indivíduo cuide dele, para divulgar o milagre, acrescentar louvor ao Criador e agradecimento a Ele, pelos milagres que nos fez. Mesmo que (o indivíduo) não tenha o que comer, a não ser por meio de caridade, deve tomar emprestado ou vender suas vestes para adquirir óleo e lamparinas e acendê-las”.
Não há nenhum outro preceito pelo qual se deva vender as roupas para que possa ser cumprido. Somente neste caso, pela divulgação do milagre e pelo agradecimento a D’us, ordenaram nossos sábios que o indivíduo aja diferentemente do que está acostumado e até mesmo chegue a se envergonhar com isso, pedindo caridade ou vendendo suas vestes. Aqui vemos a preciosidade deste mandamento e a enorme importância de lembrar do milagre.
Na continuação (halachá 13), escreve o Rambam: “Eis que se ele só possui uma moeda e tem que escolher entre o kidush (de Shabat à noite, pois é permitido recitá-lo sobre o pão) ou o acendimento das velas de Chanucá, deve preferir a compra do óleo e o acendimento da luz de Chanucá ao vinho para o Kidush. Isso, porque os dois foram instituídos pelos escribas e é melhor dar preferência à luz de Chanucá, na qual está implícita a lembrança do milagre”.
“Seus Caminhos São Caminhos Agradáveis”
A preferência das luzes de Chanucá sobre o Kidush demonstra sua importância. No entanto, o Rambam traz, na continuação (halachá 14), que existem obrigações que as precedem:
“Se tem que escolher entre a vela de sua casa (para iluminar no Shabat) e a vela de Chanucá, ou entre a vela de sua casa e o Kidush, a vela de sua casa tem preferência, por causa da paz familiar. Eis que o Nome (Divino) é apagado (no caso de uma “sotá”) para que haja paz entre o marido e sua esposa. Grande é a paz, pois toda a Torá foi outorgada para que se faça a paz no mundo, conforme está escrito: ‘seus caminhos são caminhos agradáveis e todas suas trilhas são paz’”.
Quando analisamos a fonte desta lei, em Massêchet Shabat (23b), encontramos que é óbvio para a Guemará que a paz conjugal tem preferência. Assim consta: “Perguntou Rava: vela de Chanucá ou o Kidush, qual se deve fazer?” Rava não tem dúvidas, no entanto, quanto à preferência das velas de Shabat. Continua a Guemará: “é óbvio para mim que entre a vela de sua casa e a vela de Chanucá, a vela de sua casa tem preferência, por causa da harmonia no lar”.
Explica o Rashi: “em um lugar onde não há luz não há paz, pois se tropeça no escuro. ‘Foi abandonada, de paz, minha alma’
- refere-se ao acendimento da vela do Shabat, pois as pessoas sofrem por sentarem-se no escuro”. O Bach (Rav Yoel Sirkis) diz que a versão correta é “pois se come então no escuro”.
Pergunta o Rav Ben Tsiyon Bruk zt”l em seu livro, Heg’yonê Mussar: “Qual é o problema de comer no escuro? Que tristes consequências podem advir disso?”
O Rav Bruk explica isso baseando-se nas palavras da Guemará em Massêchet Yomá (74b), que pergunta sobre o versículo: “Que lhe deu de comer o man (maná) no deserto para te fazer sofrer” - que sofrimento há em comer o man?
Uma das idéias é que “não é igual quem possui pão em sua cesta e quem não possui pão em sua cesta. Explica o Rashi: “ele come hoje e se preocupa com o amanhã”. Ou seja, os Filhos de Israel viviam o tempo todo pela misericórdia Divina e temiam que de repente parasse de cair o man.
A segunda idéia é que “não é igual aquele que come e vê e aquele que come e não vê”. Explica o Rashi que aquele que comia o man sentia o sabor de tudo o que quisesse, mas via somente o próprio man. Disse sobre isso Abayê, na Guemará: “portanto, aquele que tem uma refeição deve comê-la durante o dia” - pois de dia ele verá o alimento e poderá se satisfazer com ele.
Os Filhos de Israel comeram o man por quarenta anos, no deserto. Embora não lhes faltasse nada, a Torá considera o fato de comerem man como um sofrimento, por não poderem ver a comida palpavelmente, perante seus olhos - mesmo que podiam sentir o gosto do que desejassem.
O Shabat é um dia de deleite e alegria. Assim, nossos sábios decretaram que para haver um prazer pleno, é necessário que haja velas acesas (de véspera de Shabat) para que a pessoa não coma no escuro e assim possa ver o que foi preparado para que desfrute dos alimentos.
A Torá Se Preocupa com o Bem-Estar do Povo de Israel
As velas de Shabat têm preferência sobre as de Chanucá, portanto, por causa da necessidade de manter a paz no lar. Logo, é necessário entender por que a lei não é diferente para quem é solteiro ou come sozinho, uma vez que o motivo acima trazido não se aplica nestes casos.
No Heg’yonê Mussar são trazidas as palavras do Rambam no Sêfer Hamitsvot (Lô Taassê 317), sobre a proibição de amaldiçoar até mesmo um surdo: “Talvez poderíamos pensar que o motivo de não poder amaldiçoar um membro de Israel se deve ao sofrimento e dor que o atingirão com isso. Logo, (diríamos) que quanto a um surdo, que não ouvirá e não sofrerá com isso, não haveria, nesse ato, um pecado”.
“Eis que nos avisa (a Torá) que isso constitui uma proibição, advertindo-nos quanto a ela. Isso porque a Torá não se preocupou apenas com o amaldiçoado, mas se preocupou também com aquele que amaldiçoa, por si só, quando o advertiu para que não mova sua alma em direção à vingança e não se acostume a irritar-se”.
Das palavras do Rambam, aprendemos um grande fundamento para a compreensão das palavras da Torá e de seus mandamentos. Quando a Torá proibiu a briga entre alguém e seu semelhante ou de um marido e sua esposa, não o fez apenas para evitar sofrimento, dor, ofensa e vergonha àquele que é atingido; ela o fez também para salvar aquele que ataca.
Na prática, também aquele que fere, ofende ou amaldiçoa o outro é prejudicado. Isto se dá tanto pelo fato de ele estragar o caráter de sua alma, acostumando-se a atos desse tipo, quanto pelo remorso que certamente sentirá depois se acalmar.
O interesse da Torá é que todos se sintam bem e contentes durante suas vidas. Assim, é importante fortalecer a paz, para que as pessoas sintam-se bem umas com as outras e tenham o coração repleto de alegria e sentimento de plenitude.
Isso é tão importante aos olhos de D’us que Ele disse: “Meu Nome, que foi escrito com santidade, será apagado na água, para trazer paz entre o marido e sua esposa” (referente a um caso de Sotá). Aos olhos de D’us, é extremamente importante que cada um se sinta bem e tenha uma vida feliz e agradável.
Portanto, também aquele que come sozinho deve acender as velas de Shabat. A Torá se interessa por ele e quer que lhe seja agradável, que não coma no escuro e acabe se sentindo triste, tenso e infeliz.
Este é o motivo que a vela de Shabat precede a de Chanucá em todos os casos, embora a de Chanucá seja especial e inclua em si a divulgação do milagre e o agradecimento a D’us.
Do livro “A Fonte da Vida”