Rabi Chananyá Ben Chachinai diz: "Aquele que permanece acordado durante a noite, aquele que anda sozinho na estrada e aquele que dirige seu coração à futilidade, compromete sua alma."
O Meiri - sábio da época dos rishonim, cerca de 700 anos atrás - explica esta mishná da seguinte maneira: Aquele que permanece acordado durante a noite, causando malefício a seu corpo, aquele que anda sozinho na estrada, colocando-se em perigo devido aos ladrões das estradas e aquele que dirige seu coração à futilidade, não estudando a Torá nem se ocupando de algum trabalho - pois o ócio leva o homem a um estado de depressão - todos estes causam prejuízos a si mesmos. Assim, Rabi Chananyá vem nos ensinar que, apesar da fé que a pessoa deve ter no Criador, da crença que deve possuir de que Dele provém o bem e o mal, ainda assim deve tomar cuidado para não se auto prejudicar e colocar-se em situações de risco.
O Rabino Eliyáhu Lupian zt"l, um dos grandes sábios da geração passada, explica que esta mishná pode ser interpretada como uma metáfora:
"Aquele que permanece acordado durante a noite": Muitas vezes ocorre que um indivíduo se esquece do Criador. Isto pode, inclusive, durar muito tempo. Chega um momento, entretanto, que, por um ou outro motivo, o indivíduo acaba "acordando" e "abrindo os olhos". Isto é positivo quando ainda é jovem e pode reformular sua vida, mas quão amargo é se isso acontece quando já está velho e sem forças... É a isto que se refere esta passagem: "Aquele que fica acordado durante a noite - somente na velhice - está se condenando".
"Aquele que anda sozinho na estrada": Existem pessoas que não prestam atenção ao que dizem os mais sábios e mais velhos, nem se interessam pelas instruções dos grandes rabinos e tsadikim. Estes indivíduos se guiam sozinhos pelo seu caminho, "andam sozinhos na estrada". Eles também se condenam, pois com isto estão pondo em risco suas vidas, tanto neste mundo como no Mundo Vindouro.
"Aquele que dirige seu coração à futilidade": Alguns indivíduos têm por natureza um coração sensível, de modo que tudo o que é captado por sua mente é logo transferido para o coração. Isto pode ser uma grande virtude no âmbito do estudo da Torá e no cumprimento das mitsvot. Porém, da mesma forma, quando este indivíduo dirige seus pensamentos às coisas vãs, isso atinge diretamente seu coração e o coloca espiritualmente em perigo.
Capítulo 4 - Mishná 16
Rabi Yaacov diz: "Este mundo se parece com um vestíbulo perante o Mundo Vindouro. Prepara-te no vestíbulo para que possas entrar no salão."
Rabi Yaacov, citado nesta mishná, é Rabi Yaacov Corshai, o mestre de Rabi Yehudá Hanassi ("Mishnayot Kehati"). Aqui, ele vem nos ensinar que este mundo é apenas uma preparação para o Mundo Vindouro, pois este mundo é passageiro, enquanto o Mundo Vindouro é eterno. Assim, Rabi Yaacov nos ensina: "Prepara-te no vestíbulo - neste mundo - através do cumprimento das mitsvot e do estudo da Torá, pois somente deste modo pode-se adentrar no salão - o Mundo vindouro".
Um pequeno exemplo ilustra bem esta mishná:
Há muitos anos um homem resolveu emigrar para os Estados Unidos. Como a viagem de navio seria muito longe, haveria uma parada de duas semanas na França antes de prosseguir viagem.
Sabendo disso, o homem resolveu estudar francês para estar preparado para esta escala. Assim, chegando na França, com o francês que havia aprendido, conseguiu se arrumar de forma esplêndida no país. Passadas duas semanas o navio seguiu viagem.
Ao chegar nos Estados Unidos, o homem tentou se comunicar em francês, porém ninguém o entendia e nem ele entendia o que lhe falavam, pois que não sabia nem uma palavra em inglês. Outro imigrante, do mesmo local de procedência deste homem, presenciando a situação, disse-lhe: "Tolo! Ao invés de preocupar-se em aprender inglês para poder se comunicar a vida inteira nos Estados Unidos, você preferiu estudar francês, que só usou durante duas semanas!?"
Assim somos nós! Ao invés de preocuparmo-nos com o que nos será válido no Mundo Vindouro, para nossa eternidade, preocupamo-nos apenas com as "duas semanas"de estadia neste mundo.
Do livro "Mussar Avicha".