Matérias >> Edição 196 >> Visão Judaica II

Shir Hashirim

Rabino I. Dichi

Shir Hashirim é um cântico relacionado com Pêssach. Sobre ele, Rabi Akiva disse: "Todos os Ketuvim são santos, porém o Shir Hashirim é o santo dos santos"

Nas escrituras judaicas existem cinco meguilot, relacionadas por nossos sábios com épocas de nosso calendário.

Meguilat Ester está relacionada com Purim, Meguilat Rut com Shavuot, Echá com Tishá Beav, Cohêlet com Sucot e Shir Hashirim com Pêssach.

Analisemos um pouco da mensagem que nos é transmitida em Shir Hashirim.

Shir Hashirim começa com o seguinte versículo: “Shir Hashirim asher Lishlomô” - Cântico dos cânticos de Shelomô. Rashi comenta, logo no início, que nossos sábios explicaram que toda vez que aparece a palavra “Shelomô” no Shir Hashirim refere-se ao Todo-Poderoso - “Mêlech shehashalom shelô” - exceto na passagem “haêlef lechá Shelomô”, quando se refere ao Rei Shelomô.

Rashi continua explicando que este cântico está acima de qualquer outro cântico recitado ao Criador pelo Seu povo, a comunidade de Israel. Ele diz que o dia em que foi dado o Shir Hashirim para o Povo de Israel foi um dia especial, pois todos os ketuvim (cânticos e escrituras) são côdesh (santos), porém o Shir Hashirim é côdesh codashim (santo dos santos).

Em uma análise feita no livro “Darkê Mussar”, o Rabino Naimann zt”l nos traz o motivo de Rabi Akiva dar tanta importância a este cântico: Todos os outros cânticos foram proferidos em situações alegres e confortáveis, louvando o Todo-Poderoso em agradecimento por alguma ajuda ou salvação de uma situação difícil. Shirat Hayam - o Cântico do Mar - por exemplo, foi recitado pelo Povo de Israel quando foram salvos do exército egípcio após a abertura do Mar Vermelho. Meguilat Ester relata a salvação dos yehudim na época de Achashverosh, o imperador persa. Yehoshua também proferiu uma shirá após conquistar a cidade de Yerichô, e assim sucessivamente.

Shir Hashirim, no entanto, é um cântico relacionado com a diáspora (e esta é a ligação entre Shir Hashirim e Pêssach - a Festa da Libertação), onde esperamos nossa salvação. Apesar de, eventualmente, nossa situação na diáspora parecer tranquila, certamente corremos riscos - sejam materiais ou espirituais, iminentes ou potenciais. Sem dúvida, com a gueulá - a redenção - passaremos a uma situação infinitamente melhor. Rabi Akiva diz que é natural que louvemos o Criador em uma situação confortável, em agradecimento por uma bondade Divina; entretanto, louvarmos o Todo-Poderoso em épocas de diáspora é o que torna Shir Hashirim “côdesh codashim”.

Sabemos que Shir Hashirim não deve ser interpretado literalmente, pois é um cântico repleto de metáforas. Estas foram devidamente interpretadas pelos nossos sábios, e assim devemos estudá-lo. Vejamos uma destas interpretações:

 “- Eu deixei minha devoção adormecer, mas o D’us do meu coração vigiava! Um som! Meu Amado está batendo!

“- Abre teu coração para Mim, Minha irmã, Minha amada, Minha pomba, Minha perfeição; deixa-Me entrar pois Minha cabeça está cheia de memórias boas como os benefícios do orvalho, memórias de Avraham; rejeita-Me e Eu trarei chuvas que castigam em noites de exílio.

“- Já despi a minha roupa de devoção; como poderei vesti-la? Já lavei os meus pés que trilharam o Teu caminho, como os tornarei a sujar? Com raiva da minha demora, meu Amado enviou Sua mão através do portal com cólera e estremeci em meu interior por esperar por Ele. Eu me levantei para abrir para o meu Amado e minhas mãos destilavam perfume de arrependida devoção... Eu abri para o meu Amado, mas meu Amado já tinha voltado Suas costas para mim e tinha ido. Minha alma foi-se embora ao Seu decreto! Eu procurei Sua proximidade, mas não a encontrei; eu O procurei, mas Ele não atendeu.”

O trecho acima descrito deve ser compreendido como um eventual diálogo entre nós e o Todo-Poderoso, Que tem um afeto especial pelo povo escolhido. Nós estamos desatentos às vontades de D’us dormindo - mas, apesar disso, o Criador está atento a nos vigiar, esperando que voltemos a ouvi-Lo. De várias formas Hashem nos “chama” com muito carinho para que O ouçamos, como se estivesse do lado de fora da casa numa noite fria. Nós porém, displicentes e preguiçosos, procuramos encontrar uma série de desculpas para não atendê-Lo. O Todo-Poderoso insiste em demonstrar a importância de ouvirmos Seu chamado, forçando Sua entrada e só então “estremecemos”. Quando decidimos atendê-Lo, não o fazemos com a urgência e agilidade necessárias, mas primeiramente vamos “nos perfumar”. Quando finalmente vamos recebê-Lo, entristecemo-nos ao saber que Ele se distanciou.

Desse trecho vemos que a mensagem do Shir Hashirim expressa todo o carinho que o Criador sente por Benê Yisrael e a necessidade de despertarmos para recebê-Lo.

Demonstra-nos que mesmo que estejamos “dormindo”, o Todo-Poderoso está atento a nos cuidar, conforme diz o versículo (Tehilim 121:4): “Hinê lô yanum velô yishan shomer Yisrael” - Eis que não cochila nem dorme o Guardião de Israel.

Sabemos que ninguém mais do que um marido espera ansioso e preocupado pela sua esposa, ou um pai espera pelo seu filho sem saber onde está. Dizem nossos sábios que o sentimento do Todo-Poderoso em relação ao Seu povo, entretanto, supera a ambos. O Criador espera ansiosamente que voltemos ao caminho correto e que estejamos cada vez mais próximos Dele.

Dentre as inúmeras desculpas que procuramos para não atendermos a este chamado está a declaração “eu não tenho mais perdão”. Muitos, comodamente conformados com seus modos de vida, dizem que mesmo que quisessem retornar não seriam aceitos. Às vezes acham que estão em um nível tão baixo, que seriam recusados por D’us. Sabemos que o Faraó chegou a um nível em que Hashem não mais o ajudaria a arrepender-se. Sobre isto, conhecemos uma expressão que diz: “Col asher yomar lechá báal habáyit assê, chuts mitsê!” Faze tudo que o dono da casa te disser, menos sair. Nossos sábios explicam que devemos fazer tudo que o Todo-Poderoso nos ordena, a não ser que a ordem seja não voltarmos a Ele; neste caso devemos insistir em voltar, conforme ocorreu com o próprio Faraó.

do livro “Nos Caminhos da Eternidade II”